Como surgiu a Filosofia? 

Por Paulo Vitor

O que nós conhecemos por Filosofia não existe desde sempre. Portanto, houve um início e um iniciador. Ora, alguém começou a fazer filosofia, e esse projeto filosófico se estende até os nossos dias e não sabemos quando será o seu fim. 

O presente artigo pretende explicar o surgimento da Filosofia, respondendo a algumas perguntas. Assim, ao mesmo tempo em que falaremos sobre o surgimento da Filosofia, também, de certo modo, faremos Filosofia; isso porque, antes de tudo, filosofar é fazer perguntas e tentar respondê-las, isto é, fazer uma reflexão, uma meditação sobre determinado problema. 

A primeira coisa que devemos fazer é definir o que é Filosofia. A etimologia da palavra vem do grego, e é composta de duas palavras, a saber: philo, que significa amigo, amante; e sophia, que significa sabedoria. Sendo assim, a tradução literal da palavra é “amigo da sabedoria” ou “amante da sabedoria”. Esse é o significado etimológico da palavra. 

Entretanto, Filosofia também é considerada, sobretudo pelos medievais (com muita precisão, por sinal), a mãe de todas as ciências. E isso tem um motivo (e um motivo justo), porquanto a Filosofia busca o princípio de todas as coisas, o fundamento da realidade, as causas e a finalidade. Por causa disso, surge o conhecimento e, a partir dos fundamentos que a Filosofia oferece, as outras ciências podem se desenvolver. Assim, uma ciência que se afasta da Filosofia pode estar se aproximando do erro. 

Além do mais, a Filosofia é uma ciência, que tem o seu método, o seu objeto e assim por diante. Com a modernidade, o conceito da palavra “ciência” foi alterado, relacionando-o com a experimentação; assim, a ciência se tornou experimental apenas, ou seja, algo de laboratório. Desse modo, muitos dos cientistas de hoje não consideraram a Filosofia como ciência. Ora, aqui já podemos ver um erro, pois nem tudo o que conhecemos é passível de ser levado ao laboratório. Logo, muitos desses cientistas acabam se afastando da Filosofia e caem em erros grotescos, além do que começam a ser geradas divergências entre eles mesmos, e, então, aquilo que deveria ser um conhecimento seguro, porquanto experimentado, acaba por gerar mais confusão do que certeza. 

Após falarmos sobre o que é Filosofia e uma breve divagação sobre a sua relação com a ciência, podemos dar mais um passo em nossos questionamentos. 

A próxima pergunta é esta: onde surge a Filosofia? Antes de falarmos sobre como ela surgiu, é importante que saibamos onde ela surgiu. Ela surgiu na Grécia Antiga, na região da Jônia, por volta do século VII a.C. Os historiadores elencam vários motivos para explicar o porquê de a Filosofia ter surgido ali, como a posição geográfica, pois é uma região marítima e de comércio, por onde, portanto, transitava um grande número de pessoas, inclusive de outras regiões. Em razão disso, aquela região começou a absorver conhecimentos vindos de outros povos que não eram gregos. 

Além disso, a mitologia grega era algo muito difundido; ela era usada para explicar, de forma alegórica, alguns fenômenos, fossem eles naturais, isto é, da natureza, ou humanos ou, até mesmo, divinos. Assim, os mitos eram o meio que os gregos usavam para explicar dados da realidade. Todavia, os mitos não eram um discurso lógico e racional, mas sim poético, alegórico. Sendo assim, quando um grego olhava para a realidade, ele não via um centauro, não via uma medusa; isso, evidentemente, gera uma frustração na busca de um conhecimento. Portanto, por mais que o mito tentasse explicar a realidade, existia uma lacuna que era a lógica, o raciocínio. Só que isso também não invalida o conhecimento poético fornecido pelos mitos, porque, a partir deles, é possível fazer abstrações e conhecer realidades, sobretudo das ações humanas que são coerentes com a realidade. 

Assim, não existe uma oposição entre a Filosofia e o Mito, no sentido de que a Filosofia seja superior e de que o Mito deva ser erradicado por não ter nenhuma serventia para alcançar o conhecimento. O que há são divergências quanto ao modo de explicação da realidade. Que a Filosofia é mais precisa, isso, sim, é evidente, logo ela é superior; porém, o mito não deve ser erradicado, visto que também é útil. Desse modo, na linguagem poética, que é usada nos mitos, nas histórias, e até mesmo nas parábolas utilizadas por Jesus, há, sim, uma possibilidade de conhecimento que não é desprezível. 

Depois de já adiantar essa relação entre Filosofia e Mito, podemos, agora, fazer a terceira e a quarta perguntas, que são as mais importantes deste artigo. 

Como surge a Filosofia e quem é o primeiro filósofo? Em um determinado momento, aquele discurso mitológico não foi suficiente para suprir a sede de conhecimento do homem. Então, surgem as indagações sobre o princípio de todas as coisas. Tales de Mileto, que é o primeiro filósofo, começa a perguntar sobre o princípio, a que os gregos deram o nome de arché. Ele queria saber o que era o princípio de todas as coisas existentes; isso, num primeiro momento, estava limitado à natureza. Ou seja, Tales de Mileto olhava para a realidade e via que ela existe, as coisas materiais existem, e nos mitos ele não encontrava uma resposta convincente para dizer sobre o surgimento dessa realidade.  

Então, ele começa a filosofar, a indagar “o que é o quê?”, isto é, fazer uma questão, investigar o que está relacionado a essa questão, buscando uma resposta racional que seja condizente com a realidade, usando uma linguagem lógica, analítica, e não uma linguagem poética. 

Para ficar mais claro: Tales de Mileto chega à conclusão de que o princípio de todas as coisas é a água, pois, observando a realidade, ele foi percebendo que aquilo que tinha vida gozava de uma certa umidade, e que a umidade era provocada pela água. Logo, a origem de todas as coisas é a substância água. E se nós olharmos para a realidade, existe um fundamento real no que ele conclui. Basta olharmos para uma árvore: se ela está viva e nós ferimos o seu tronco, sairá algo úmido. E quando a árvore está morta, ela também seca. Porém, a sua resposta não consegue abarcar toda a realidade, pois basta observarmos mais um pouco e veremos que nem todas as coisas que existem têm umidade. 

Entretanto, Tales de Mileto dá o pontapé inicial na Filosofia. Ele mesmo não sabia que estava filosofando, não tinha um projeto filosófico, nem mesmo termos corretos para serem utilizados. E digo mais: nem mesmo os filósofos posteriores, até Sócrates, tinham uma clareza do que era a Filosofia. Contudo, a partir dele começou esse movimento filosófico que chega até os nossos tempos e que passou por diversas transformações. 

O segundo filósofo continuou tentando responder à pergunta feita por Tales, mas chegou a uma conclusão diferente. Trata-se de Anaximandro, que foi um discípulo do primeiro filósofo e também era da região da Jônia. Em sua busca pelo princípio, chega à conclusão de que o princípio de todas as coisas é o “ápeiron”, que quer dizer “indeterminado”, ou seja, não tem término, e, por isso, também não tem início; assim, é eterno e infinito, isto é, o seu tamanho excede a tudo.  

Ora, parece que, com Anaximandro, nós damos um passo significativo na Filosofia. Por mais que muitos ainda considerem que Anaximandro esteja ainda falando de coisas materiais, ou seja, que ele ainda não esteja falando de uma substância espiritual, nós vemos que foi dado um passo, pois agora a Filosofia chegou a pensar a realidade em termos mais abstratos. E a elaborar respostas com esses termos.  

Aqui, vale dizer algo importante: a Filosofia não é um processo contínuo de evoluções e transformações para melhor, isto é, não é porque um filósofo é mais recente que outro, que ele é mais preciso e dá respostas melhores aos problemas filosóficos. Nada disso. Durante a História da Filosofia, há várias nuances, altos e baixos, acertos e erros, coerências e contradições. Portanto, o mais novo não é, necessariamente, melhor que o mais antigo, e tampouco o antigo é garantia de estar certo. Contudo, vale também dizer que há uma Filosofia Perene, que é uma filosofia que está ligada à tradição filosófica, ou seja, é uma linha que dá continuidade à Filosofia, colhendo aquilo que há de verdadeiro no pensamento filosófico. Dentre os filósofos que contribuíram para uma Filosofia Perene, podemos destacar: Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás. Esses são grandes nomes da Filosofia Perene, sobretudo, Santo Tomás, pois ele soube colher o pensamento filosófico de seus antecessores e fazer uma síntese grandiosa de todo o conhecimento adquirido até ele. Algo da magnitude que Santo Tomás fez nunca foi visto de modo tão exemplar até os dias de hoje.  

Voltando ao assunto do surgimento da Filosofia, para concluir, poderíamos citar outros filósofos desse início, como Anaxímenes, Heráclito, Parmênides, Demócrito, mas citar Tales e Anaximandro já é suficiente para compreendermos melhor como surgiu a Filosofia, a sua finalidade, o seu método e os princípios que ela busca.  

Daremos continuidade ao assunto da Filosofia falando sobre Sócrates, mas isso será em um próximo artigo.