Por Thais Oliveira
O século XIX viveu a Revolução Industrial, transição nas formas do processo de produção que resultou na alteração das relações entre operários e patrões, na afluência das riquezas para as mãos de um pequeno número e na indigência de uma grande multidão de pessoas. Diante do alastramento do liberalismo e de suas funestas consequências, as pessoas apostaram numa solução socialista para a questão social. O Pontífice da época, Papa Leão XIII, Pastor Supremo da Igreja, se viu na obrigação de se manifestar sobre tudo o que estava acontecendo. Esse posicionamento se deu pela Encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891. No documento, o Santo Padre critica o liberalismo, diz que a solução socialista é inaceitável e conclui que só a Doutrina Social da Igreja poderia ser o remédio para o problema operário: “A questão de que se trata é de tal natureza, que, se não apelamos para a religião e para a Igreja, é impossível encontrar-lhe uma solução eficaz”.
O Brasil de hoje vive um movimento semelhante e ao mesmo tempo contrário ao da época da Revolução Industrial. Da mesma forma com que o povo do século XIX, vendo as mazelas daquele tempo, viu no socialismo o remédio contra o liberalismo, o brasileiro do século XXI, diante do alastramento, por anos, do socialismo, colocou sua esperança no liberalismo.
A verdade, porém, é que existe uma falsa oposição entre os dois sistemas. Essa falsa ideia foi criada em nosso imaginário por causa da Guerra Fria. Fato é que ambas as ideologias convergem em muitos pontos. Karl Marx, o pai do comunismo, foi muito influenciado por John Locke, o pai do liberalismo. Ambos defendem o estado laico e um suposto igualitarismo. John Locke chega a escrever que “devemos tolerar tudo que existe na sociedade, exceto o catolicismo”. Seu ideal era: destronar Deus, destronar o rei, destronar o pai de família e desconstruir a masculinidade. Todos esses ideais estão presentes também no comunismo e, por isso, se empenham tanto em propagar e incentivar o divórcio, o casamento homossexual, o aborto e a legalização das drogas.
É importante deixar claro que nenhum partido do mundo está 100% alinhado com o que a Igreja ensina.
Os partidos estão divididos nas seguintes correntes:
- Liberalismo;
- Marxismo: revolução em resposta ao liberalismo, o qual, por sua vez, se subdivide em:
- Marxismo leninista: propõe a revolução pelo uso da força. Chamado de comunismo;
- Marxismo cultural: propõe a revolução pela mudança da mentalidade das pessoas. Chamado de socialismo;
- Nacional-socialismo: chamado de nazismo, está um pouco em desuso hoje em dia devido à exposição de todas as atrocidades que tal ideologia ocasionou.
A Igreja não defende nenhum desses projetos políticos, porque todos eles são obcecados pelo sistema financeiro, colocando a economia no centro de tudo. Para os liberais, a solução dos problemas está na liberdade econômica. Para os marxistas, a solução dos problemas está no controle da economia pelo Estado. Os liberais idolatram o mercado. Os marxistas alimentam a inveja.
A Igreja não propõe uma adaptação dessas vertentes. Ela propõe algo de outra ordem. É como se fossem apresentadas à Igreja várias cores para escolher e ela escolhesse a nota musical “Dó”. Ou seja, a Igreja olha para outro plano. Para a Igreja, a base da sociedade não é o sistema econômico; é a família.
O Catecismo da Igreja Católica condena essa visão política em que o dinheiro está na base de tudo:
Parágrafo 2423: “Todo sistema segundo o qual as relações sociais seriam inteiramente determinadas pelos fatores econômicos é contrário à natureza da pessoa humana e de seus atos”.
O Catecismo também deixa claro que a Igreja rejeita o Comunismo, o Socialismo e alguns aspectos do Capitalismo:
Parágrafo 2425: “A Igreja tem rejeitado as ideologias totalitárias e ateias associadas, nos tempos modernos, ao ‘comunismo’ ou ao ‘socialismo’. Além disso, na prática do ‘capitalismo’, ela recusou o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano”.
Toda a desarmonia que existe entre os homens se dá pelo pecado. Enquanto houver propostas políticas que não têm como propósito a santificação de cada homem, essas serão ineficientes. A Doutrina Social da Igreja é a face visível da Igreja, que se preocupa profundamente com as questões sociais, econômicas, políticas porque essas questões afetam diretamente a salvação das almas. E é por isso que podemos afirmar que fora da Doutrina Social da Igreja não há solução para nenhuma questão social.
Referências:
Catecismo da Igreja Católica – 1997, Edições Loyola;
Compêndio da Doutrina Social da Igreja – Pontifício Conselho Justiça e Paz – 2011, Editora Paulinas;
Curso de Doutrina Social da Igreja ministrado por Pedro Luiz de Affonseca;
Vídeo “E o capitalismo?”, do Padre Paulo Ricardo.