Por Laís Moura
Queridos leitores,
Este espaço é a realização de um sonho.
Lembro-me de sempre passar na banca, após a Missa, para escolher a revista da semana. Embora a imensa maioria das revistas não tivesse muito conteúdo cultural, eu sempre procurava logo pelas colunas mensais e pelas entrevistas. E, por diversas vezes, pensava: “Eu queria ser colunista de alguma revista, algum dia”. Digamos que esse sonho não se realizou, mas ele foi atualizado para ser colunista de um site — a escritora responsável pela coluna “Aspectos da alma humana”.
Neste espaço, compartilharei reflexões e temáticas deste estudo, que é o meu trabalho, mas também a minha paixão: a psicologia. A etimologia da palavra “psicologia” é a junção dos termos gregos “psyché” (alma) e “logos” (estudo). Portanto, a psicologia é (ou deveria ser, tendo em vista que os cursos de psicologia se distanciam cada vez mais disso) o estudo da alma humana.
Partindo deste papel de psicóloga, em que eu preciso estabelecer uma certa distância entre profissional e paciente, seria natural, para mim, escrever um texto mais informativo e impessoal. Todavia, a minha profissão já exige isso de mim o suficiente. Então, decidi lançar mão de uma escrita mais íntima e reflexiva.
Além disso, minha aspiração maior é de que este espaço os conduza para um aumento da compreensão de si mesmos e um desejo de mudanças concretas e práticas em suas vidas, aproximando-os, assim, de uma vida bem vivida. Este é o meu anseio para as pessoas que eu amo, para meus pacientes e para vocês: tenham uma vida bem vivida. Teremos muitas oportunidades para nos aprofundar nisso, mas, por ora, vamos começar falando sobre pensamentos.
Esses dias, estava lendo um relato de uma escritora que luta contra os seus pensamentos ansiosos. Ela descreve com maestria o seu processo interno de ansiedade. Percebo que, em muitas situações, não possuímos repertório linguístico suficiente para expressar muitos de nossos movimentos internos, o que, de fato, é extremamente difícil e ficamos com aquela sensação de “me faltam palavras para descrever isso”, afinal, estamos lidando com um universo abstrato, embora real. Uma maneira excelente para entender melhor o que está havendo consigo mesmo, no campo das emoções e cognições, é a leitura. Diz ela:
“Como a maior parte dos humanoides, carrego o fardo daquilo que os budistas chamam de “mente de macaco” — pensamentos que pulam de galho em galho, parando apenas para se coçar, cuspir e guinchar. Desde o passado remoto até o futuro desconhecido, minha mente fica pulando a esmo pelo tempo, tendo dúzias de ideias por minuto, descontrolada e sem disciplina. Isso, em si, não é necessariamente um problema; o problema é o apego emocional que acompanha o pensamento. Pensamentos felizes me tornam feliz, mas — vupt! — com que rapidez torno a me prender a preocupações obsessivas, estragando a felicidade; e então basta a lembrança de um momento de raiva para eu começar a ficar exaltada e brava de novo; e então minha mente decide que aquela pode ser uma boa hora para começar a sentir pena de si mesma, e a solidão não demora a chegar. Afinal de contas, você é o que você pensa. As suas emoções são escravas dos seus pensamentos, e você é escravo de suas emoções. O outro problema de toda essa pulação pelos galhos do pensamento é que você nunca está onde está. Você está sempre remoendo o passado ou especulando sobre o futuro, mas raramente para no momento presente. É um pouco como o hábito da minha querida amiga Susan, que — sempre que vê um lugar bonito — exclama, quase em pânico: “Que lindo isto aqui! Quero voltar aqui algum dia!”, e preciso lançar mão de todo o meu poder de persuasão para tentar convencê-la de que ela já está lá.” (Elizabeth Gilbert)
Embora eu tenha algumas percepções diferentes da escritora, quero destacar essa cabeça pensante que nos afasta do presente. Temos uma média de 70.000 macacos — “pensamentos que pulam de galho em galho, parando apenas para se coçar, cuspir e guinchar” — por dia. Suponho que os ansiosos possuam até mais do que essa média. É um desafio lidar com tudo isso. Costumo ouvir muitos relatos de pacientes, após começarem tratamento medicamentoso para ansiedade e TDAH, sobre o quanto a “mente ficou quieta, silenciosa, os pensamentos se acalmaram”. Ou seja, cada macaco ficou no seu galho. E a consequência disso? A pessoa passa a ter uma vida melhor, mais bem vivida.
Ao pensar nisso, recordei-me bem dos primeiros dias de aula, na escola em que estudei, quando era criança. Imaginem uma média de 150 crianças gritando e correndo desesperadas e animadas pelo pátio. A diretora, Irmã Rosarita (jamais me esquecerei desse nome), pegava o microfone e simplesmente dizia: “Vamos ouvir o silêncio!”. Em questão de minutos, todos estavam quietos, mas aquela frase era abstrata demais para mim, não entendia o que era ouvir o silêncio. Concentrava-me, então, em identificar os barulhos dos passarinhos cantando. Todos os anos, aquilo se repetia.
É provável que os seus barulhos externos não sejam gritos de crianças, mas de celular apitando, pessoas nas redes sociais chamando, noticiário rodando, vizinhos com músicas altas, trânsito, além — é claro! — dos pensamentos ensurdecedores. Nesses momentos, eu aposto que você gostaria de ter uma Irmã Rosarita gritando “VAMOS OUVIR O SILÊNCIO!” para que tudo se acalmasse.
Ainda que queiramos silenciar, não sabemos fazer isso. Por diversas vezes, ouvi de pacientes: “O silêncio me incomoda”. Esse incômodo carrega diversos elementos, mas um deles é a incapacidade de estar presente, de concentrar a sua atenção no que está acontecendo neste mero instante. Nossos pensamentos devem ser o eco da nossa presença na vida e não da nossa ansiedade. Não se trata de uma tarefa fácil, mas diária. Alguns exercícios psicológicos podem auxiliar nisso, como as técnicas de respiração (respiração diafragmática ou quadrada) e de mindfulness.
Podemos nos aprofundar nessas técnicas em oportunidades futuras, mas há ainda uma outra história que gosto de compartilhar, que costumo contar para os meus pacientes sobre esse assunto. Imagine os pensamentos passando na sua cabeça como se fossem trens. Eles estão aí fazendo barulho e passando rapidamente por você. Não conseguimos controlá-los, mas controlamos se vamos entrar em determinado vagão ou não, se seremos conduzidos mentalmente por um trem que vai nos levar para longe do aqui e agora ou não. Vamos supor que, de fato, você tenha entrado em um vagão que o levou para muito longe do momento presente. O que fazer agora? Se pular, vai se machucar e, se ficar esperando o trem parar, você terá perdido minutos preciosos da sua vida em devaneios.
Contudo, esse trem é diferente, cada vagão tem um freio e cada passageiro consegue utilizá-lo, se sentir necessidade. Esse freio é a realidade do presente, do que está acontecendo na sua vida. Quando você começa a olhar para o que está acontecendo ao seu redor, se conectar com o local em que você está, com as pessoas na sua frente, aos poucos, o vagão começa a parar. Os pensamentos realmente brotam na nossa mente, mas você sempre pode escolher se vai embarcar neles ou não.
Hoje, entendo que a Irmã Rosarita não estava nos ensinando apenas a parar de falar, ela também estava tentando nos ensinar a aquietar a mente e os pensamentos. Se encontrasse Irmã Rosarita (soube que está bem doente e não mora mais na cidade em que cresci), certamente lhe agradeceria esse ensinamento de silenciar o mundo exterior e conseguir silenciar o mundo interior. De alguma forma, tentar ouvir o silêncio e trazer a sua consciência para o seu presente podem ajudá-lo — e muito! — quando tiver uma média de 70.000 macacos pulando de galho em galho e de trem em trem pela sua cabeça. Silencie. Traga a sua consciência para o presente. Desça do vagão e veja cada macaco no seu galho.
Psicóloga Laís Moura