Na Presença dos Anjos

Por Sérgio Vellozo

Encontrei estas belas palavras sobre liturgia no início de um sermão de Bento XVI, então Cardeal Ratzinger, quando seu irmão deixou o cargo de Mestre do Coro na catedral de Regensburg.

No outono de 1992, depois de um inesquecível voo de helicóptero sobre as montanhas do Tirol do Sul, visitei o mosteiro do Monte de Santa Maria (Marienberg), no vale do Etsch  https://www.marienberg.it/de/home.html.

O mosteiro foi fundado naquele magnífico cenário natural para louvor e glória de Deus, respondendo, assim, à sua maneira, ao convite expresso no Cântico dos Três Jovens: “Montes e alturas, louvai o Senhor! (Dn 3,75).

O verdadeiro tesouro deste mosteiro é a cripta (dedicada em 13 de julho de 1160) com os seus gloriosos frescos, que nos últimos anos foram quase totalmente limpos, restaurados e expostos. Como acontece com toda a arte medieval, estas imagens não têm um significado meramente estético. Concebem-se como culto, como parte da grande liturgia da Criação e do mundo redimido a que este mosteiro se devia juntar. Por conseguinte, o programa pictórico reflete a compreensão básica comum da liturgia que ainda estava viva na Igreja universal, oriental e ocidental. Por um lado, estas imagens mostram uma forte influência bizantina, embora permaneçam, no fundo, bastante bíblicas; por outro lado, são essencialmente determinadas pela tradição monástica – concretamente, a Regra de São Bento. 

Por isso, o verdadeiro foco de atenção é a Majestas Domini, o Senhor ressuscitado e glorificado em toda a sua majestade visto também e sobretudo como Aquele que há de vir, que vem agora mesmo na Eucaristia. Ao celebrar a divina liturgia, a Igreja sai ao seu encontro na verdade, a liturgia é o ato desta saída ao encontro Daquele que vem. Ele antecipa sempre, na liturgia, a sua vinda prometida: a liturgia é a parusia antecipada, ou segunda vinda; é a entrada do “já” no nosso “ainda não”, como João o apresentou na história das bodas de Caná. A hora do Senhor ainda não chegou, e tudo o que deve acontecer ainda não se cumpriu. Mas, a pedido de Maria e da Igreja, ele dá agora o vinho novo, e derrama agora, antecipadamente, o dom da sua “hora”. 

O Senhor ressuscitado não está sozinho nestes frescos do Monte de Santa Maria. Vemo-Lo nas imagens que o Apocalipse utiliza para representar a liturgia celeste, rodeado pelos quatro seres alados e, sobretudo, por uma grande multidão de anjos cantores. O seu canto é a expressão dessa alegria que ninguém lhes pode tirar, da dissolução da existência no júbilo da liberdade realizada.

Desde o início, a vida monástica foi entendida como uma vida vivida à maneira dos anjos, que é simplesmente adoração. Entrar ou assumir o estilo de vida dos anjos significa transformar toda a vida num ato de adoração, tanto quanto isso é possível para a fraqueza humana. Celebrar a liturgia é o próprio coração do monaquismo [vida monástica], mas, nesse aspecto, o monaquismo simplesmente torna visível a todos a razão mais profunda da existência cristã e mesmo humana!

Ao contemplarem estes frescos, os monges do Monte de Santa Maria pensaram certamente no capítulo dezenove da Regra de São Bento, que trata da disciplina do canto dos salmos e da maneira de rezar o ofício divino. Aí, o pai do monaquismo ocidental recorda-lhes, entre outras coisas, o versículo do Salmo 147 (Vulgata): In conspectu angelorum psallam tibi (Na presença dos anjos, cantarei a Ti). E Bento prossegue: “Consideremos, pois, como nos devemos comportar na presença de Deus e dos seus anjos, e cantemos os salmos de modo que a mente e a voz estejam em harmonia, ut mens nostra concordet voci nostrœ“.

Não é, portanto, que o homem invente algo e depois o cante, mas sim que o cântico lhe vem dos coros angélicos, e ele deve elevar o seu coração ao alto para que possa harmonizar-se com o tom que lhe chega. 

Mas um fato é fundamental: a sagrada liturgia não é algo que os monges fabricam ou produzem. Ela já existia antes de eles estarem lá; é uma entrada na liturgia celeste que já estava a acontecer. Só neste e através deste fato é que a liturgia terrena é de fato uma liturgia: na medida em que é – se insere – nessa liturgia maior e mais grandiosa que já está a ser celebrada.

E assim o significado destes frescos torna-se completamente claro. Através deles, a realidade genuína, a liturgia celeste, brilha neste espaço. Os frescos são, por assim dizer, uma janela através da qual os monges espreitam para esse grande coro, cuja pertença é o próprio coração e o centro da sua vocação. “Na presença dos anjos, cantarei a Ti”. Esta norma está constantemente presente ao olhar dos monges, nos seus frescos.