Que tipo de velho(a) você quer ser?

Por Laís Moura

“Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”: esse foi o tema da redação do ENEM de 2025. Embora eu não faça uma prova do ENEM há 10 anos, ainda me interesso pelos temas de redação, já que essa sempre foi a minha parte favorita da prova. E este ano não foi diferente: meus pacientes vestibulandos logo me contaram o assunto, e eu imediatamente comecei a divagar sobre ele. Não sei exatamente o que os corretores buscam nas redações atualmente, nem se a estrutura exigida ainda é a mesma da minha época. (Calma! Você não está pensando que eu vá escrever uma redação sobre esse tema… né? Não! Mas é quase isso.) Como já disse antes, talvez você termine a leitura dos meus artigos com mais perguntas do que respostas.

Tenho algumas ideias sobre o que o ENEM esperava dos jovens com esse tema, mas tenho mais clareza sobre o que eu quero esmiuçar com você: que tipos de velhos você conhece, e que tipo de velho(a) você quer ser. Uso propositalmente a palavra velho, porque ela carrega o peso do tempo de um jeito que idoso não carrega. Quero conduzi-lo a imaginar um(a) velho(a) que você admire MUITO. Como é essa pessoa? Como é a história de vida dela? O que alimenta a mente dela — e a alma? Como são suas relações? Como ela se conecta com as pessoas? Você gostaria de se parecer com ela? Por quê? Agora pense em um(a) velho(a) que você não admira, alguém que talvez lhe dê até um certo medo só de imaginar seguir o mesmo caminho. Faça as mesmas perguntas para si mesmo referentes a essa segunda pessoa imaginada. Se quiser, você pode expandir esse exercício para os velhos do nosso país. Como são eles? Como são elas? Mas, por ora, vou continuar na linha do raciocínio.

Eu não faço ideia de em quem você pensou, mas vou compartilhar as minhas pessoas. A primeira imaginação me levou até Adélia Prado — com quem tive o prazer de tomar um café um dia (história para outro momento). Para mim, ela é a materialização de uma velha sábia. Quando fechei os olhos para pensar na segunda figura, veio à mente uma senhora que conheci certa vez: morava sozinha e passava cerca de 10 horas por dia assistindo a novelas, além de ser brigada com os filhos. Embora fosse forte, gentil e batalhadora, ela se tornou, para mim, a imagem do tipo de velha que eu não gostaria de me tornar. Na minha percepção, a velha sábia mergulhou na vida, nos seus sentidos, significados, experiências. É uma pessoa que teve e ainda tem, nessa fase da vida, uma vida bem vivida, sobretudo com relação ao aproveitamento do tempo.

Na Psicologia, costumamos dizer que psicólogo é como vinho: quanto mais velho, melhor. Concordo em parte, mas quero extrair a essência dessa ideia — a sabedoria se conquista com o tempo e com as experiências. Existem reflexões que só serão reveladas à sua consciência depois que seus olhos já tiverem visto, lido ou vivido algumas coisas. O tempo é o diamante que lapida a nossa sabedoria.

Partindo desse pressuposto, os idosos deveriam ocupar o lugar dos anciãos da comunidade — como acontecia antigamente, sobretudo em sociedades menores. Isso já foi retratado em diversos filmes. Minha função aqui não é analisá-los, mas vou recorrer brevemente a um deles que ilustra bem o que quero dizer: em “O Doador de Memórias”, a sociedade depende justamente de alguém que carrega lembranças das experiências passadas. O Doador, já idoso, é o guardião das emoções, das dores e das belezas que a comunidade escolheu esquecer — e é essa vivência acumulada que o torna essencial. Ele representa simbolicamente o lugar do ancião: aquele que, por ter vivido, pode orientar, alertar, transmitir sentido e humanidade a quem ainda está aprendendo a ver o mundo — no caso do filme, o jovem Jonas.

Na contramão dessa ideia de sabedoria, tivemos, em outubro de 2020, a notícia de que, pela primeira vez na história, os filhos apresentam QI inferior ao dos pais, conforme afirmou o neurocientista Michel Desmurget — autor do livro A Fábrica de Cretinos Digitais — em entrevista à BBC. Entre diversas explicações, correlações e possíveis causalidades, a principal é a geração dos nativos digitais, crianças que já nasceram imersas no universo das telas. Embora inteligência e sabedoria não sejam a mesma coisa, elas se correlacionam. Enquanto a primeira é, de algum modo, quantificável e a segunda não, aquela serve para iluminar esta. E, nesse aspecto específico, ambas se articulam com o intuito de ajudar a compreender as perspectivas das próximas gerações de idosos.

E uma das falas de Desmurget que merece destaque é esta:

“Uma consequência dessa mudança é que perdemos a capacidade de apenas existir com nossos pensamentos — de desenvolver ideias novas e criativas e pensar ocasionalmente sobre tudo o que acontece ao nosso redor. Os telefones atraem o entretenimento para nós — exigem muito pouco — e, como resultado, esperamos esse nível de estímulo em toda experiência. Isso nos tornou — e tornou nossos filhos — menos resilientes, menos pacientes e menos dispostos a lidar com a complexidade e o tédio”.

Com tudo isso em mente, eu quero lhe perguntar — e eu espero verdadeiramente que você se permita estar a sós apenas com os seus pensamentos para responder às seguintes perguntas:

  1. Quais são as suas perspectivas acerca do seu envelhecimento? A sua versão com 80 anos, sabe? 
  2. Agora, expanda isso para o Brasil e para o mundo. Como você imagina que serão os idosos? Não falo da situação financeira, mas falo do que é mais potente: quem serão como pessoas?
  3. Como você pretende cuidar e preservar a sua inteligência e sabedoria para ajudar as gerações futuras?
  4. E como cuidar das gerações futuras, esses nativos digitais, para que também possam florescer na última etapa da vida?

Que tipo de velho(a) você quer ser?

Não fuja da resposta.

Eu te vejo no próximo artigo.