Os macacos de Darwin e o Cristianismo

Qualquer pessoa que tenha concluído o ensino fundamental — na minha época, chamado de primeiro grau — há de se lembrar daquele livro de Ciências que mostra, em um de seus capítulos, uma ilustração composta de uma sequência de macacos que vão gradualmente se inclinando para trás (ou para cima) até culminar no homem, completamente ereto. Com isso, fica “provado” que o ser humano tem uma ancestralidade simiesca.

Além disso, somos bombardeados incessantemente pela mídia em geral com a ideia de que o evolucionismo é mais do que uma teoria científica; é um truísmo, isto é, uma verdade absoluta que, como tal, não admite contestação. Trata-se (querem nos fazer crer) de uma realidade tão insofismável que qualquer um que ouse levantar alguma objeção contra ela é tachado de ignorante.

Mas será que é mesmo assim?

Uma das maiores descobertas da minha vida, lá pelos trinta e poucos anos (e como eu gostaria de ter descoberto isto antes!), foi a constatação (pasmem!) de que jornalistas e outros formadores de opinião mentem. Hoje essa realidade parece mais patente, ao menos quando o assunto é política.

Pois bem. Os veículos de mídia — por ignorância ou má-fé — sempre dizem que o único argumento usado pelos criacionistas é este: “O evolucionismo está errado porque vai contra o que está na Bíblia”. Assim, somos ardilosamente induzidos a crer que contestar o evolucionismo é coisa de fundamentalista religioso; que é uma atitude de gente ignorante, avessa à ciência e blá-blá-blá… E (claro!) como ninguém gosta de ser visto assim, todos acabam aceitando docilmente a “infalibilidade” da teoria da evolução. Afinal, somos pessoas do século XXI, em que a ciência sempre dá a última palavra.

O que escondem de nós, contudo, é que existem inúmeros argumentos científicos que apontam sérios erros na teoria evolucionista, mas isso é uma longa história que merece um artigo (ou talvez um tratado) abordando exclusivamente a questão.

Aqui neste singelo ensaio (ou seria crônica?), interessa-me mais a questão filosófico-teológica por trás da teoria da evolução. Então, vejamos.

É princípio dos mais elementares que o efeito não pode ser maior do que a sua própria causa. No entanto, o evolucionismo subverte essa lógica, porquanto pressupõe, em última análise, que a ameba (causa, ainda que remota) foi capaz de dar origem ao homem (efeito), mesmo sendo este absurdamente superior àquela. De fato — e infelizmente! —, muitas vezes agimos como meras amebas pensantes.

Brincadeiras à parte, o problema fica mais sério quando enveredamos pelo caminho da doutrina cristã. Ouso dizer que, fosse a teoria evolucionista verdadeira, poderíamos rasgar a Bíblia e jogar o cristianismo (e, de cambulhada, o judaísmo) na lata de lixo, devido às implicações morais relativas à defesa da vida humana em geral e, sobretudo, das mais vulneráveis, como será visto adiante.

Com efeito, Cristo disse: “Eu vim para que todos tenham vida, e para que a tenham em abundância” (Jo 10,10). Pobre Jesus! Mal sabia ele que estava enganado; afinal, dizem os evolucionistas que a vida não é para todos, mas apenas para os mais aptos. Outro tropeço de Cristo (atenção: contém ironia — e espero não estar sendo blasfemo!) foi Ele dizer: “Os últimos serão os primeiros” (Mt 20,16). Para os discípulos das amebas pensantes (ops!… evolucionistas), os últimos não terão outra sorte a não ser realmente ficar para trás.

Essa história de que a teoria evolucionista teria surgido com Charles Darwin ou qualquer outro cientista é mais um sofisma que procuram nos empurrar goela abaixo. Na verdade, ela remonta ao pensamento religioso da cultura oriental desde muito antes de Cristo. Segundo tais religiões/filosofias, quer de caráter gnóstico, quer de caráter panteísta, a divindade está contida na própria matéria e, por meio das sucessivas reencarnações, um ser qualquer (inicialmente insignificante, mas que traz em si a essência divina) vai, ainda que a duras penas, evoluindo para seres mais elevados. A teoria de Darwin, a qual, aliás, já está superada até mesmo entre os próprios evolucionistas, em linhas gerais, nada mais é que a teoria reencarnacionista com um uma roupagem científica. Vale dizer: a evolução das espécies está para a natureza assim como a evolução da alma está para o plano espiritual tal como entendido por essas filosofias supracitadas. O próprio Allan Kardec acreditava que o espírito que anima, por exemplo, um homem menos dotado física e intelectualmente é inferior ao espírito que anima um homem forte e mais inteligente.

É preciso, outrossim, dizer que uma das ideologias mais assassinas de todos os tempos — o nazismo — tinha como ideia central exatamente o “dogma” pseudocientífico do evolucionismo. Não por acaso, o seu maior símbolo (a suástica) consiste em uma cruz com todas as hastes retorcidas e as pontas voltadas num mesmo sentido, para a direita, dando a impressão de um mecanismo que está em constante movimento para a frente, ou seja, em constante evolução. Teoria da Conspiração?! Para quem pensa assim, recomendo a leitura do fenomenal livro “A Guerra Contra os Fracos”, de autoria do jornalista americano Edwin Black, que faz um magistral liame entre o evolucionismo e as ideologias que, nos últimos séculos, defenderam o extermínio de seres humanos vulneráveis tidos apenas como uma escória genética. Nele, a uma certa altura, lê-se que um dos assessores mais próximos de Hitler, o seu secretário pessoal Rudolf Hess, definiu a sua ideologia da seguinte forma: “O nacional-socialismo (leia-se: nazismo) nada mais é que a biologia colocada em prática”. Ou seja, já que as espécies evoluem das mais simples para as mais complexas, não custa nada dar um “empurrãozinho” para a natureza, ajudando-a a acelerar o processo evolutivo.

Também Nietzsche, que muitos consideram ser o pensador que inspirou o nazismo, defendia que esse suposto processo evolucionista deveria ser acelerado. No seu livro “O Anticristo”, ele afirma que não se deve manter com vida um ser (ainda que humano) que está maduro para a morte. Portanto, a caridade praticada pelos cristãos para com os desvalidos é um desserviço, pois retardaria o processo evolucionista, pelo qual os seres menos aptos devem desaparecer para ceder lugar aos mais aptos, num processo contínuo até que surja, finalmente, o homem pleno, o ápice da evolução, ou, nas palavras de Nietzsche, o “Super-Homem”, uma verdadeira espécie de “Homem-Deus”: um ser imortal e com atributos inimagináveis. Seria a realização daquela promessa diabólica: “E vós sereis como deuses”?

Há muito mais a se falar sobre a teoria evolucionista e suas múltiplas vertentes (sim, há mais de uma!), mas, por ora, basta concluir dizendo que, tendo o status de teoria científica, o erro se espraia com mais facilidade, sem muita oposição do homem moderno, que se julga demasiado racional.

(Paulo Vilar)