Por Paulo Vilar
Certa feita, o ilustre jornalista brasileiro Paulo Francis (já falecido e, em sua época, famoso pela forma peculiar de falar diante das câmeras), durante uma entrevista concedida ao programa Roda Viva, da TV Cultura, afirmou ser impossível Deus existir em razão de o universo mostrar-se imperfeito, visto que no mundo impera o caos, e não a ordem. Disse ele: “Tamanha é a desorganização do universo, que não há sequer como localizar, nos átomos, exatamente onde se encontram os elétrons”.
Por sua vez, os membros da (aparentemente extinta) Sociedade da Terra Redonda — entidade que, no início deste século, mantinha um site com o objetivo de disseminar o ateísmo e, com seu arrogante cientificismo, supostamente lançar luzes sobre as “trevas” do ideário “obscurantista” daqueles que professam algum tipo de religião — afirmavam, simploriamente, que, se existe uma causa que não teve causa, em vez de se partir do princípio de que ela seria um ser estranho ao cosmo1 (Deus), dever-se-ia aceitar a ideia de que ela (a causa sem causa) poderia simplesmente ser o próprio mundo.
Quanto à afirmação do saudoso jornalista acima, razão lhe assiste em parte; no tocante à segunda assertiva, contudo, é ela completamente sofística. De fato, a imperfeição do mundo é um verdadeiro truísmo (algo que, de tão evidente, salta aos olhos); entretanto, essa imperfeição que lhe é inerente longe de negar a existência de um ser transcendental, ao contrário, apenas atesta ser ela uma realidade inevitável. Ora, ouso afirmar que, por mais paradoxal que possa parecer, a imperfeição do universo talvez seja a prova mais cabal da existência de Deus, porquanto não parece crível que o imperfeito possa prescindir do perfeito, embora a recíproca seja verdadeira, isto é, o perfeito pode existir sem o imperfeito. Explico: sendo o universo algo essencialmente imperfeito, não pode ele ser autossuficiente, surgindo, num momento qualquer, sponte sua (por sua própria vontade); não pode ele ter surgido a partir de um processo de geração espontânea (autogênese), visto que somente um ser que seja perfeito pode bastar-se a si mesmo. Daí ser inevitável concluir que existe uma realidade externa ao cosmo que não só lhe é anterior, como, pela ordem natural das coisas, também lhe é superior, dando-lhe sustentação.
A elucubração acima serve tanto para refutar o primeiro argumento (do Sr. Paulo Francis) quanto, também, para afastar o segundo (da Sociedade da Terra Redonda). Aliás, quanto à pueril argumentação dessa associação, é ela totalmente contraditória em relação aos próprios postulados que tal entidade defende (ou defendia), haja vista que os seus membros adotam (ou adotavam) entusiasticamente a tese de que o universo teria vindo a lume após a “Grande Explosão” que tudo originou (Teoria do Big Bang). Não nego a possibilidade de tal teoria; por outro lado, como aceitar que tal explosão tenha surgido do nada, sponte propria, ou seja, por sua própria vontade? Ora, uma das premissas da própria ciência é que “do nada, nada surge”, ou como dizia Lavoisier: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. No entanto, argumentam eles, contraditoriamente, que o próprio cosmo pode muito bem ser a tal causa primeira, isto é, a causa que não teve causa; por outro lado, admitem que o universo teve um início — santa incoerência, Batman!!! Como pode algo ter tido início sem que uma causa exterior o gerasse? Para que o mundo não tivesse uma causa, seria necessário que ele sempre tivesse existido, que fosse eterno (aquilo que não teve início nem terá fim, por estar fora do tempo), entretanto os próprios cientistas afirmam que ele teve um começo, bem como que terá um fim. Vale dizer, eles mesmos (os cientistas) atestam ser o mundo algo contingente (aquilo que hoje é, e amanhã já não é mais); uma realidade transeunte, passageira, esquecendo-se de que, assim sendo, é forçoso concluir que, pela ordem natural das coisas, não pode o mundo ser a tal causa primeira, visto que esta há de ser algo imutável (aquilo que definitivamente É, de forma absoluta), ou, como dizia, entre outros teólogos, São Tomás de Aquino, tem de ser o “Motor Imóvel” (aquilo que tudo move sem ser por nada movido).
Posto isso, a teoria do Big Bang, por seu turno, também só faz demonstrar a necessidade de um Ser que transcenda a realidade meramente cósmica; “algo” (melhor seria dizer “alguém”) a que(m) chamamos DEUS.
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1. Segundo o dicionário Novo Aurélio Século XXI, 3ª edição (impresso em dezembro de 1999 sob encomenda da Editora Nova Fronteira), o correto, quando queremos nos referir ao “mundo” ou ao “universo”, é usar a palavra “cosmo” (sem a letra s final). O mesmo dicionário ensina que a palavra “cosmos” (com o s final) é o nome de uma espécie de planta. O referido léxico ensina, ainda, que a palavra “cosmo” (universo ou mundo) vem do grego kósmos eas palavras de origem grega terminadas com a letra s, ao serem transliteradas para o português, isto é, passadas do alfabeto grego para o nosso, perdem a letra s final. É por isso que dizemos “Cristo”, palavra igualmente de origem grega (Christós), a qual significa “ungido”, e que, ao ser transliterada para a nossa língua, também perde a letra s final.