Por Sergio Vellozo
(Este artigo é continuação do que foi publicado em 29/05/2026)
A santa Inteligência nos deixa captar os planos de Deus e entender os seus caminhos. Facilmente ficamos desconcertados e temerosos com os acontecimentos que não entendemos. Um exemplo é o comportamento dos discípulos fugindo quando o Senhor foi preso (Marcos 14:50). Mas, mesmo em circunstâncias menos alarmantes, caminhando com o Senhor, pretendemos orientar o curso das coisas ao nosso modo e nos tornamos pedra de tropeço (Mateus 16:23). Cabe a nós ouvir: “Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas!” (Lucas 24:25). Sim, diante dos caminhos de Deus nos falta inteligência.
Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.
(Isaías 55:8,9)
«Cristo é vivo, ontem e hoje: Ele é o Princípio e o Fim, o Alfa e o Ômega. Pertencem-Lhe os anos e os séculos. A Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos» (Missal Romano, Preparação do círio pascal). Ele é o Senhor da história, pertencem-Lhe os séculos e os milénios.
Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Por que quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.
(1 Coríntios 2:14-16)
Na mente de Cristo, que é cabeça da Igreja, seu povo que somos nós, está toda inteligência e entendimento (Colossenses 1:17-19). O dom da Inteligência nos sintoniza com a mente do Senhor, que nos revela tudo (João 15:15).
Para que não fiquemos deslumbrados com a maravilha dos planos e meios de Deus, o próximo dom é como um anjo que nos ajuda a aterrizar (Atos dos Apóstolos 1:11).
O santo Conselho faz perceber como relacionar uma situação concreta que surge com os caminhos e propósitos que a santa Inteligência mostrou. Sabemos “que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28), mas como interpretar a situação presente? Como esta coisa presente se encaixa no que Deus está fazendo na história? Qual a postura adequada para lidar com as circunstâncias do momento?
Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus e precisamos agir conforme o tempo, o kairós (Eclesiastes 3,1.10.11.17). Não adianta fazer o certo na hora errada (Números 14:1-45).
Vigiai, pois, com cuidado sobre a vossa conduta: que ela não seja conduta de insensatos, mas de sábios que aproveitam ciosamente o tempo, pois os dias são maus. Não sejais imprudentes, mas procurai compreender qual seja a vontade de Deus.
(Efésios 5:15-17)
Tanto as coisas amenas como as difíceis estão a serviço do encontro com o mistério que faz tudo existir e é sempre presente. Alguns exemplos de Nosso Senhor: diante da disputa sobre impostos, pergunta o que damos a Deus (Mateus 22,17-21); diante da disputa sobre local de culto, indica a adoração que Deus busca (João 4,20-24); diante do conflito sobre herança, fala da riqueza diante de Deus (João 12,13-21). O dom do Conselho nos ajuda a conectar tudo com Deus e sua obra.
Tendo a compreensão, que vem de situar o que acontece no contexto da obra de Deus, agimos com confiança e proveito. O remédio amargo é recebido com satisfação quando consideramos a cura que opera, contudo é moderada a satisfação com bens provisórios. Fundamental é interpretar os sinais dos tempos para, como o surfista que se posiciona para fluir na onda, estarmos prontos.
… Quando a tarde vem, vocês dizem: ‘Vai fazer bom tempo, porque o céu está vermelho’, e de manhã: ‘Hoje haverá tempestade, porque o céu está vermelho e nublado’. Vocês sabem interpretar o aspecto do céu, mas não sabem interpretar os sinais dos tempos! Uma geração perversa e adúltera pede um sinal miraculoso, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas …
(Mateus 16:2-4)
A providência de Deus se revela nos detalhes, em coisas simples como um fio de cabelo (Mateus 10,30). Um auxílio para perceber e interpretar os detalhes à luz do senhorio de Deus é precioso. Nosso Senhor chora pelos que se perdem não reconhecendo o tempo e a hora (Lucas 19,44) e nós devemos chorar com Ele.
A santa Sabedoria recapitula e harmoniza os seis dons, que são como três pares de asas que nós recebemos para adentrar o divino. Queremos Deus! Sentimos falta de Deus! Isso é Sabedoria.
Uma só coisa peço ao Senhor, esta solicito: é que eu habite na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para gozar da suavidade do Senhor e contemplar o seu templo.
(Salmo 26,4)
Os salmos falam de provar o sabor de Deus (Salmo 33,9) como fino manjar (Salmo 62,6) ou doçura de mel (Salmo 118,103). De fato, Deus é alimento da alma como pão descido do Céu (João 6,58).
Esse íntimo contato com Deus, vemos na relação de Nosso Senhor Jesus com o Pai através do Espírito.
Com efeito, aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus, porque ele concede o Espírito sem medidas. O Pai ama o Filho e confiou-lhe todas as coisas.
(João 3:34,35)
Jesus vai dizer que “só faz o que vê fazer o Pai; e tudo o que o Pai faz, o faz também semelhantemente o Filho” (João 5:19); que a sua doutrina é daquele que o enviou (João 7,16; 12,49). Ele conta que nunca está só: “Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho, porque faço sempre o que é do seu agrado” (João 8,29). Os milagres do Senhor são para demonstrar que Ele está no Pai e o Pai n´Ele (João 10,37-38; 14,10-11).
A relação do Senhor Jesus com o Pai, comunhão de obras e palavras, é única, pois só Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mas pode ser compartilhada (Mateus 11,27).
Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim.
(João 17:21-23)
A graça santificante e, especialmente, o dom da Sabedoria permitem ao cristão desfrutar uma fusão com Deus que veio habitar na sua alma. Deus é generoso e quer se dar a quem deseja e pede com fé sem vacilar (Tiago 1,5-8). A união com Deus ocorre em diversos graus de intensidade, como descreve a teologia mística. Mais uma vez, vale destacar os escritos de São João da Cruz, Doctor Mysticus, que colaborou com Santa Teresa de Ávila na reforma do Carmelo. Perseguido pelos inimigos da reforma, esteve submetido a prisão e torturas por nove meses. Nessa ocasião, compôs o Cântico Espiritual. Mais tarde ele elabora comentários aos versos, mas, no prólogo, adverte que as “Canções, tendo sido compostas em amor de abundante inteligência mística, não poderão ser explicadas completamente … quero somente dar alguma luz geral”. Para ilustrar esse precioso ensino, sobre a união mística da alma com o Amado, escolhi a Canção XV e um pequeno trecho das explicações sobre o primeiro e o último verso:
“A noite sossegada,
Quase aos levantes do raiar da aurora;
A música calada,
A solidão sonora,
A ceia que recreia e que enamora.”
“Durante esse sono espiritual que a alma dorme no peito de seu Amado, possui e goza todo o sossego, descanso e quietude de uma noite tranquila. Recebe, ao mesmo tempo, em Deus, uma abissal e obscura compreensão divina. Por isso, diz que seu Amado é, para ela, a noite sossegada.
…
“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei – e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20). Nessas palavras mostra ele como traz a ceia consigo, e essa ceia não é outra coisa senão o próprio sabor e deleite de que ele mesmo goza; e, unindo-se à alma, lhos comunica, fazendo com que ela participe de seu gozo, e isso significa cear ele com ela, e ela com ele. Nestes termos é simbolizado o efeito da divina união da alma com Deus: os mesmos bens próprios a Deus se tornam comuns à alma Esposa, sendo-lhe comunicados por ele, de modo liberal e generoso. É, pois, o próprio Amado, para a alma, a ceia que recreia e enamora.”
Eis o organismo sobrenatural com os dons do Espírito Santo unidos pela Sabedoria. No corpo de cada asa temos o nome do dom, o objeto divino que ele capta e a bem-aventurança que ele anima.

Vinde Espírito Criador, a nossa alma visitai
e enchei os corações com vossos dons celestiais.
Vós sois chamado o Intercessor de Deus excelso dom sem par,
a fonte viva, o fogo, o amor, a unção divina e salutar.
Sois o doador dos sete dons e sois poder na mão do Pai,
por Ele prometido a nós, por nós seus feitos proclamai.
A nossa mente iluminai, os corações enchei de amor,
nossa fraqueza encorajai, qual força eterna e protetor.
Nosso inimigo repeli, e concedei-nos a vossa paz,
se pela graça nos guiais, o mal deixamos para trás.
Ao Pai e ao Filho Salvador, por vós possamos conhecer
que procedeis do Seu amor, fazei-nos sempre firmes crer.
Amém!