Os pré-socráticos

Por Paulo Vitor

Introdução

A Filosofia surge na Grécia. Para ser mais preciso, na região da Jônia, com Tales de Mileto (624 a.C. – 546 a.C.). E desde então a Filosofia foi se desenvolvendo.

Neste artigo, falaremos sobre os pré-socráticos, que são os primeiros filósofos. Foram eles que tentaram responder à primeira pergunta da Filosofia usando a razão, e não os mitos, como anteriormente era feito para explicar os fatos da realidade.

E qual é essa primeira pergunta? Eis que eu vos digo: “qual é o princípio de todas as coisas?”; aquilo que também chamamos de arché.

Portanto, a busca dos primeiros filósofos foi pela arché, pelo princípio de todas as coisas. Mas, antes de nos aprofundarmos nisso, vamos falar sobre as condições que possibilitaram o surgimento da Filosofia.

O surgimento da Filosofia

Como dissemos anteriormente, a Filosofia surge na Grécia, na região da Jônia. Mas é bem verdade que, nos últimos tempos, surgiram alguns propondo uma nova teoria: a de que já havia uma presença filosófica em outros povos com uma data anterior ao surgimento na Grécia.

É claro que essa tese não se sustenta, pois a Filosofia tal como a conhecemos é fruto do desenvolvimento que os filósofos gregos produziram, e, quando estudamos a História da Filosofia, conseguimos “rastrear” o surgimento até os gregos.

Mas podemos perguntar: por que a filosofia surgiu na região da Jônia?

Ali era uma rota comercial “internacional”, havia o encontro de muitas culturas diferentes, com conhecimentos diferentes, com “mitos” diferentes. Outra coisa que colaborou é que os mitos já não eram mais suficientes para explicar a realidade; eles queriam algo mais racional.

Assim, a junção desses e de outros acontecimentos proporcionou o surgimento de questões, mas, mais do que isso, de respostas.

E, falando nisso, quero dizer algo: alguns afirmam que fazer filosofia é fazer perguntas, é saber perguntar, e que o grande “mérito” da filosofia é deixar as perguntas “em aberto”, pois isso mostra que a filosofia não é algo “fechado”.

Mas eu penso justamente o contrário. Afinal, a doutrina filosófica do filósofo não está na sua pergunta, mas sim na resposta que ele elabora. É ali que se encontra o seu pensamento.

E o mérito da filosofia está, sim, em dar respostas fechadas, pois, se é uma resposta fechada, é sinal de que aquilo é verdade, de que não restam mais dúvidas. E esta é a grande finalidade da filosofia: a busca da verdade.

Quem são os pré-socráticos?

Dito isso, vamos conhecer os filósofos pré-socráticos. Como o próprio nome já diz, eles são anteriores a Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.).

Aqui é oportuno fazer um parêntese para dizer que, dentro da Filosofia Antiga, temos divisões por períodos. Portanto, existe o período pré-socrático, que será este que vamos estudar neste artigo.

Esses primeiros filósofos são chamados de pré-socráticos porque Sócrates de fato foi uma figura importante para a filosofia. Sem dúvida, existe uma filosofia antes de Sócrates e outra depois de Sócrates.

Por exemplo: ele insere na discussão filosófica temas totalmente novos, como a alma (psyqué).

Mas, afinal, quem são os pré-socráticos?

Temos Tales de Mileto (624 a.C. – 546 a.C.), Anaximandro (610 a.C. – 546 a.C.) e Anaxímenes (588 a.C. – 524 a.C.), conhecidos como filósofos jônicos.

Depois, temos Heráclito (535 a.C. – 475 a.C.) e Parmênides (530 a.C. – 460 a.C.), além de Pitágoras (570 a.C. – 495 a.C.) e a Escola Pitagórica.

Também aparecem Zenão de Eleia (490 a.C. – 430 a.C.), Empédocles (490 a.C. – 430 a.C.), Anaxágoras (500 a.C. – 428 a.C.) e Demócrito (460 a.C. – 370 a.C.).

Esses são os principais pré-socráticos. Temos também os sofistas, mas sobre eles falaremos no próximo artigo, pois já pertencem à época de Sócrates.

Cada um deles tentou responder à pergunta: “qual é o princípio de todas as coisas?”.

Essa é uma pergunta de ordem cosmológica (cosmos = ordem do mundo; logos = estudo), ou seja, o estudo sobre a ordem do mundo, sobre a física, a natureza. E por isso esses filósofos também recebem o nome de cosmólogos, físicos ou naturalistas.

Porque o grande tema de discussão é sobre o princípio das coisas materiais.

Tales de Mileto

Tales de Mileto (624 a.C. – 546 a.C.) nasceu na cidade de Mileto e é considerado o primeiro filósofo, ou seja, ele foi o primeiro a responder racionalmente à pergunta sobre o princípio de todas as coisas.

E a resposta que ele deu foi que a origem de todas as coisas é a água, pois ela é um elemento primordial do qual todas as coisas derivam e para o qual retornam.

Ainda que simples, sua tese é racional e parte da observação da realidade, e não apela aos deuses, como faziam os autores dos mitos.

À primeira vista, parece algo muito simplório dizer que a água é a origem de todas as coisas, mas foi um grande passo. E, por mais que a sua tese não seja verdadeira, ela tem um fundamento.

De fato, observamos que tudo o que tem vida possui água. Sabemos que sem água a espécie humana não existiria. A água é um elemento fundamental, mas não é o princípio de todas as coisas.


Anaximandro de Mileto

O segundo filósofo é Anaximandro (610 a.C. – 546 a.C.). Ele foi discípulo de Tales, mas discordou da solução apresentada pelo seu mestre.

Para Anaximandro, a origem de todas as coisas é o apeiron, que significa “indefinido” ou “ilimitado”.

E, na minha opinião, essa é a melhor resposta entre os pré-socráticos, pois já apresenta uma noção mais abstrata e próxima do que depois será chamado da ideia de “ser”.

O apeiron é um aceno de longe à ideia de Deus, que é ilimitado.

Então, segundo Anaximandro, as coisas derivam do apeiron.


Anaxímenes de Mileto

Em seguida, temos Anaxímenes (588 a.C. – 524 a.C.), que também nasceu em Mileto.

Ele rejeita a tese de Anaximandro, pois, segundo ele, o apeiron é impensável.

E, de fato, se fizermos uma abstração, o ilimitado é impensável, porque, se uma coisa é ilimitada, ela deve preencher tudo o que existe. Ou seja, o ilimitado precisa estar em todos os lugares, e, do ponto de vista material, isso é impossível.

Sendo assim, não faz sentido falar em ilimitado.

Vejam só como um desdobramento da tese de Anaxímenes pode nos levar apenas para o materialismo, enquanto o desdobramento da tese de Anaximandro pode nos levar para a metafísica e, como consequência, para Deus como princípio de todas as coisas.

Mas ainda não falei sobre a tese de Anaxímenes.

Para ele, a arché é o ar, ou seja, o ar é o princípio de tudo.

Ele também introduz a ideia de rarefação e condensação como processos que explicam as mudanças da matéria. Ou seja, as coisas se separam, se desfazem e se juntam a partir desses processos.

Esses são os filósofos da Escola Jônica.


Heráclito de Éfeso

Agora seremos apresentados a dois grandes nomes da filosofia pré-socrática: Heráclito (535 a.C. – 475 a.C.) e Parmênides (530 a.C. – 460 a.C.).

Com eles surge um embate filosófico central: o problema do ser e do devir, ou da permanência e da mudança.

O primeiro é o filósofo da mudança. Ele diz que tudo flui, tudo está em mudança.

Existe uma famosa frase dele que diz: “É impossível um mesmo homem entrar no mesmo rio duas vezes”.

Porque o homem já não é mais o mesmo, tampouco o rio, pois tudo está em uma mudança constante.

E, segundo ele, é o fogo que é a origem dessa transformação; portanto, o fogo é a arché para Heráclito, pois ele é o símbolo da mudança.

Se tomarmos a tese de Heráclito de que tudo muda constantemente e que é impossível um mesmo homem entrar no mesmo rio duas vezes, encontraremos um problema interessante: se tudo está em constante transformação, como podemos chamar de Heráclito aquele bebê que acabou de nascer, depois chamar de Heráclito aquela criança que começou a falar, e depois chamar de Heráclito aquele homem que começou a filosofar?

Ora, se conseguimos identificar que, embora com aparência diferente e conhecimentos diferentes, ainda estamos falando do mesmo Heráclito, é sinal de que existe algo que não muda, algo que permanece.

E quem responderá muito bem a isso será Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.).

Algo que eu não posso deixar de dizer é que Heráclito também introduz a ideia do logos, uma razão ordenadora do movimento no mundo, que futuramente chamaremos de Deus.


Parmênides de Eleia

Se Heráclito é o filósofo da mudança, Parmênides (530 a.C. – 460 a.C.) é o filósofo da não mudança.

Pois a sua principal tese é a seguinte: “o ser é e o não-ser não é”.

Ou seja, o que existe, existe, e o que não existe, não existe.

Segundo ele, não existe mudança do ser para o não-ser, nem do não-ser para o ser.

Em outras palavras, é como se só existisse o tempo presente, e, no agora, o que é, é, e o que não é, não é.

Para ele, a mudança seria apenas uma ilusão dos sentidos.

Mas essa tese dele também tem problemas. Por mais que seja um fato que o que é, é, e o que não é, não é, a nossa inteligência também é capaz de captar que algumas coisas ontem não existiam e hoje existem, e coisas que existiam, hoje já não existem mais. Portanto, acontece uma mudança.

Mas, seja como for, esses dois ofereceram o núcleo da filosofia antiga, que é a discussão do ser.

E quem vai responder a esses problemas levantados por Heráclito e Parmênides será Aristóteles com a sua tese de ato e potência, substância e acidente.

Mas isso veremos um pouco mais para frente.

Pitágoras de Samos

Pitágoras (570 a.C. – 495 a.C.) nasceu em Samos, na Grécia. Ele era matemático e via o número como o princípio de todas as coisas.

E, se olharmos do ponto de vista exclusivamente materialista, de fato toda a realidade é preenchida pelo número, pois as coisas são mensuráveis. Existe distância, quantidade, proporção, tudo isso é número.

Porém, o número não é inteligente, ele não é capaz de pensar por si mesmo. Por isso, fica inviável sustentar que o número é o princípio de todas as coisas.

Ainda mais se confrontarmos isso com a ideia de Anaximandro, pois como medir o que é ilimitado?

Além de falar sobre a origem do cosmos, Pitágoras também falou sobre a imortalidade da alma, a metempsicose e a busca da purificação.

É inegável que esses pontos exerceram uma grande influência sobre Platão (428 a.C. – 348 a.C.).

Ele também fundou uma escola e conseguiu diversos discípulos.

Zenão de Eleia

Zenão de Eleia (490 a.C. – 430 a.C.) foi discípulo de Parmênides e, sendo fiel à doutrina de seu mestre, elaborou paradoxos para comprovar que a tese dele era legítima.

Um desses paradoxos é o da flecha.

Ele diz que é uma ilusão a flecha estar em movimento, porque, na verdade, ela está parada ocupando um espaço do tamanho do seu volume. Isto é, é como se existisse apenas o presente.

Em um momento a flecha está no ar, e no outro ela está no alvo.

Eu sei que é meio difícil de entender, mas, para quem entende um pouco sobre vídeo, fica mais fácil. Vou explicar.

O vídeo nada mais é do que várias fotos colocadas em sequência. Essas “fotos” recebem o nome de frames (quadros).

Se a pessoa configura o vídeo para gravar 60 frames por segundo, isso quer dizer que, em cada segundo de vídeo, é como se fossem tiradas 60 fotos. Isso faz com que percebamos o movimento.

Mas o que Zenão quer dizer é que cada frame só existiria no presente. Então, em um frame eu vejo a flecha no ar e, no outro, vejo a flecha no alvo. E eu “analiso” cada frame isoladamente, o que, no caso, seria analisar uma foto parada, sem movimento.

É como se Zenão dissesse o seguinte: o que existe é a foto. Em uma foto a flecha está no ar e, na outra, ela está no alvo. E ponto.

O vídeo seria apenas uma ilusão que nos dá a sensação de movimento.

Mas vejam, acho que não preciso usar muitos argumentos para dizer que o que Zenão diz é uma furada, concordam?

Tanto a foto quanto o vídeo existem. Possuem naturezas diferentes, mas um não anula a existência do outro. Portanto, algumas coisas não mudam, como na foto, e outras mudam, como no vídeo.

Empédocles de Agrigento

Empédocles (490 a.C. – 430 a.C.), diferentemente dos demais, nasceu na Sicília. Ou seja, não nasceu na Grécia continental. E isso é um dado interessante, pois é um sinal de que o pensamento filosófico já estava saindo da Grécia e se expandindo para outros lugares.

A tese de Empédocles é que os quatro elementos são o princípio das coisas materiais: terra, ar, fogo e água.

Para ele, toda a realidade material é composta por esses quatro elementos. Porém, o amor e o ódio seriam as forças que unem ou separam os elementos.

Aqui é no sentido de que, se existe compatibilidade (amor), os elementos se unem; e, se não existe compatibilidade (ódio), eles se separam.

Vemos que existe uma certa lógica na tese de Empédocles, mas ela ainda está muito distante da realidade. Contudo, com o conhecimento científico da época, foi uma baita intuição.

Anaxágoras

Outro filósofo pré-socrático importante é Anaxágoras (500 a.C. – 428 a.C.). Ele era um grego nascido em Clazômenas, na região da Jônia.

A tese dele é que existe um nous, isto é, uma inteligência ordenadora.

Portanto, para ele, existe uma inteligência que ordena o cosmos, toda a realidade visível, e é justamente essa inteligência o princípio de todas as coisas.

De um ponto de vista físico, a realidade seria composta por homeomerias.

E ele afirma que “tudo está em tudo”.

As homeomerias seriam como partículas presentes em todas as coisas, mas é o nous quem dá forma para elas. Desse modo, torna-se possível a diversidade das coisas.

Demócrito

Seguindo nessa linha das homeomerias como partículas que compõem as coisas materiais, temos outro filósofo chamado Demócrito (460 a.C. – 370 a.C.).

A tese dele é que tudo é composto de átomos e vazio.

Claro que o átomo de Demócrito não é o mesmo átomo que conhecemos na ciência moderna. Ele ainda não possuía instrumentos para verificar isso.

Mas ele teve a intuição de que existia uma partícula indivisível compondo a realidade material. E é justamente isso que significa a palavra “átomo”: indivisível.

É surpreendente perceber que, séculos depois, os cientistas conseguiram observar algo muito próximo do que Demócrito imaginava, algo que era impossível para ele comprovar na época, mas que ele conseguiu intuir com certa precisão.

Conclusão

Esses são os principais filósofos pré-socráticos.

Vemos que nenhum deles deu uma resposta 100% convincente ou exata, mas já conseguimos perceber que estavam tateando a verdade sobre o princípio de todas as coisas.

Além disso, foram aprimorando os termos filosóficos e inserindo novas palavras que ajudaram a fundamentar aquilo que chamamos de filosofia.

No próximo artigo falaremos sobre Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) e os sofistas. E aí sim daremos um salto filosófico ainda maior.

E depois virão saltos maiores ainda com Platão (428 a.C. – 348 a.C.) e Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.).