Por Paulo Vitor
Introdução
No artigo anterior falamos sobre os pré-socráticos e a pergunta que eles estavam buscando responder, que é a seguinte: qual é o princípio de todas as coisas? Neste artigo veremos que a filosofia grega entra em uma nova fase, pois falaremos de Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.). E, como vocês perceberam, Sócrates é uma figura importantíssima para a filosofia. Ele é um verdadeiro marco, pois, até agora na História da Filosofia, os filósofos estavam olhando para fora, para a realidade física externa a eles, para o cosmos. Por isso eram chamados de cosmólogos. E uma coisa importante: entre as várias disciplinas da filosofia, uma delas se chama cosmologia. Mas, a partir de Sócrates, a filosofia dá um salto, porque o homem se tornará objeto da investigação filosófica.
Se antes de Sócrates os filósofos olhavam para fora, Sócrates olhava para dentro. Fez perguntas sobre questões morais, como: “O que é a justiça?”. Além disso, introduziu na filosofia o termo psiqué, que significa alma.
É sobre a filosofia socrática que falaremos neste artigo, mas antes falaremos de seus adversários: os sofistas. Só que, antes de falarmos dos filósofos desse período, precisamos falar sobre o contexto da época.
O contexto: democracia e crise de fundamentos
Com a vitória sobre os persas nas Guerras Médicas (499 a.C. – 449 a.C.), Atenas vive um tempo de esplendor político e cultural. A democracia se fortalece, e com ela cresce a importância da retórica e da oratória como instrumentos de poder. Saber falar bem torna-se uma habilidade indispensável para o sucesso na vida pública, pois, afinal, para conquistar o poder dentro de uma democracia, é necessário convencer o maior número de pessoas. Isso, em si, não é nem ruim nem bom, mas, por vezes, é usado com malícia.
Nesse contexto surgem os sofistas, professores itinerantes que ofereciam educação prática em troca de pagamento, ensinando jovens aristocratas a vencer disputas com argumentos convincentes, independentemente da verdade. Em outras palavras, o que importava não era a verdade, mas a persuasão. E, para isso, utilizavam uma técnica chamada retórica.
Sendo assim, vemos uma queda da regra moral da sociedade, e, em uma sociedade em que falta a verdade, faltam também as virtudes necessárias para organizar a vida das pessoas. Querendo ou não, os sofistas tiveram um papel fundamental nisso.
Os sofistas
A palavra “sofista” originalmente significava “sábio” ou “especialista”, mas, com o tempo, passou a ter uma conotação negativa, especialmente por causa das críticas dirigidas a eles por Sócrates e, mais tarde, por Platão (428 a.C. – 348 a.C.), pois os sofistas não estavam interessados em educar as almas para a verdade, mas sim em formar pessoas capazes de persuadir. E outra coisa: faziam isso em troca de dinheiro. Vejamos algumas características gerais dos sofistas antes de comentarmos alguns deles.
No geral, eram céticos ou relativistas. Ou seja, não acreditavam em uma verdade objetiva, por isso eram relativistas. E também não estavam convencidos de que existiam verdades dogmáticas, portanto, eram céticos. Ora, eu disse anteriormente que o que marca a “qualidade” do filósofo é o quanto ele buscou a verdade e o quanto se aproximou dela.
Então fica a pergunta: será que podemos considerar os sofistas filósofos, já que, logo de cara, eles negam a verdade? E, se eles não veem valor na verdade, no que colocam valor? No discurso persuasivo, portanto, na retórica. Assim, eles reduziram a filosofia à arte da argumentação, que é justamente o significado de retórica.
Agora vamos sair um pouco dessa repetição sobre retórica e ver o que de fato eles pensavam.
Protágoras de Abdera
Protágoras (c. 490 a.C. – 420 a.C.) possui uma famosa frase: “O homem é a medida de todas as coisas”. E aqui existe um detalhe importante: mesmo que talvez ele não tivesse a intenção de fazer com que cada homem particular julgasse segundo a sua própria medida, essa acabou sendo a consequência do seu pensamento. É como se a frase fosse assim: “Eu sou a medida de todas as coisas”. Desse modo, cada indivíduo pode julgar segundo a sua própria medida.
Se eu considero algo verdadeiro, e outro considera falso, como chegaremos a uma conclusão, visto que cada um é a medida de todas as coisas? Por isso, é ilusório pensar que o homem é a medida de todas as coisas, pois a tese não se sustenta. Haveria inúmeras contradições. De tal modo que ou um estará certo e o outro errado, ou então nenhum estará certo. Mas nunca ambos estarão certos caso as opiniões sejam totalmente diferentes.
Seja como for, Protágoras introduz no pensamento ocidental a ideia de que o que é verdadeiro para um pode não ser verdadeiro para outro. Isso dará maus frutos durante a Filosofia Moderna e Contemporânea, principalmente com Ludwig Feuerbach (1804 – 1872), considerado o pai do ateísmo moderno, que de certa forma parafraseia Protágoras ao colocar o homem acima de Deus. No entanto, Feuerbach não trata de um homem particular, e sim da humanidade como medida de todas as coisas.
Górgias de Leontinos
Górgias (c. 485 a.C. – 380 a.C.) também é, sem dúvida, um importante sofista. Ele defende um niilismo radical, ou seja, afirma que nada existe. Seu raciocínio é o seguinte: “Nada existe; se algo existisse, não poderia ser conhecido; e, se pudesse ser conhecido, não poderia ser comunicado”.
Desse modo, seria impossível conhecer a verdade, pois ela não existiria. E, mesmo que existisse, não poderia ser conhecida. E, ainda que fosse conhecida, não poderia ser comunicada. Ora, Górgias de forma alguma prestava atenção às próprias palavras. Pois, se aquilo que ele afirma for verdadeiro, então existe ao menos uma verdade. Logo, o argumento dele se destrói. E, se for falso, então continua existindo verdade.
Vocês conseguiram entender?
Quando alguém diz: “A verdade não existe”, a primeira pergunta que devemos fazer é: “E isso é verdade?”. Se for verdade, então a verdade existe. E, se for falso, também confirma que a verdade existe. Conseguem perceber como a verdade é soberana? Além de existir, ela sempre acaba imperando sobre nós. Podemos até manipular palavras, assim como Górgias fazia, mas a realidade sempre prevalecerá. Talvez, por causa da manipulação, ela fique escondida por anos, mas, ainda assim, a verdade continuará sendo mais forte.
Consequências dos sofistas
Depois do que vimos, podemos concluir que os sofistas corrompem a juventude não necessariamente por imoralidade direta, mas pela negação da verdade objetiva. Ao ensinarem que o discurso é mais importante que a realidade, lançam as bases do subjetivismo e do ceticismo, desfigurando o verdadeiro papel da razão.
Agora que conhecemos um pouco mais sobre os sofistas, vamos conhecer Sócrates.
A vida de Sócrates
Em meio a essa crise moral e intelectual, surge Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) como uma figura única na História da Filosofia. Ele optou por não escrever seus pensamentos, portanto não deixou nenhuma obra escrita. Tudo o que sabemos sobre ele provém de seus discípulos, principalmente Platão (428 a.C. – 348 a.C.) e Xenofonte (430 a.C. – 354 a.C.). Mas sua vida foi, em si mesma, um testemunho de amor à verdade. E foi literalmente mesmo, porque ele morreu por causa disso.
Nascido em Atenas, de origem modesta, Sócrates serviu como soldado e viveu com extrema simplicidade. Um detalhe curioso é que ele passava os dias nos espaços públicos interrogando seus concidadãos com perguntas diretas e desconcertantes. Não cobrava por seus ensinamentos e dizia obedecer a uma missão divina, conforme o Oráculo de Delfos o declarou “o homem mais sábio”. Em contrapartida, é atribuída a ele a famosa frase: “Só sei que nada sei”. E é justamente por saber que não sabe que ele é considerado o homem mais sábio.
O desfecho da vida de Sócrates foi o seguinte: ele foi acusado de corromper a juventude e de introduzir novos deuses. Recusou-se a fugir quando foi condenado à morte e morreu após beber cicuta, que é um veneno; assim, Sócrates partiu deixando um legado de fidelidade e amor à sabedoria.
Esse relato pode ser lido na obra Apologia de Sócrates, escrita por Platão.
O método socrático
Depois de comentarmos um pouco a vida de Sócrates, vamos falar sobre o seu método de fazer filosofia. E vale lembrar que, com Sócrates, o foco da filosofia agora não está na natureza, no exterior, mas sim no interior, na alma. Por conseguinte, o centro da filosofia socrática é o conhecimento de si mesmo. Talvez você já tenha ouvido a famosa frase: “Conhece-te a ti mesmo”. Ela era uma máxima inscrita no templo de Delfos e assumida como lema por Sócrates.
O seu método é dialético e maiêutico (maieutiké = “arte de partejar”), e, sem dúvida, isso foi influenciado por sua mãe, que era parteira. E como funciona esse método? É simples: Sócrates fazia perguntas ao interlocutor para destruir suas falsas certezas. Então ele levava o sujeito a um impasse, a uma dúvida. Depois que o indivíduo já estava “rendido” e aberto à verdade, Sócrates ajudava-o a conceber por si mesmo uma definição verdadeira.
Sócrates não se apresenta como um mestre que transmite conhecimento, mas como um parteiro da verdade que já está na alma. Isto é, como se a verdade estivesse adormecida e a razão fosse o instrumento para despertá-la. Vamos entender isso ainda melhor quando falarmos do mito da caverna de Platão.
As doutrinas socráticas
Embora não tenha deixado um sistema filosófico estruturado, é possível identificar algumas teses fundamentais em Sócrates.
Primeira: existe uma verdade objetiva e universal, especialmente sobre a moral. Logo, podemos afirmar que Sócrates é filósofo de fato, pois, para ele, a verdade não é relativa. Pelo contrário, ela é objetiva, ou seja, não depende da opinião de ninguém para ser verdade. E também é universal, válida em todos os tempos e lugares.
Segunda: a alma é mais importante que o corpo e deve ser cuidada com mais zelo. Isto é, em Sócrates existe uma separação entre corpo e alma, e a alma é mais elevada. Por causa disso, devemos cuidar mais da alma do que do corpo. Ou seja, devemos exercitar mais a virtude do que apenas o corpo. Mas essa separação, quando mal compreendida, pode levar ao engano.
Terceira: o mal é fruto da ignorância. Segundo Sócrates, ninguém faz o mal voluntariamente. Essa talvez seja a tese mais perigosa de Sócrates, pois ele diz que, se uma pessoa conhece verdadeiramente o bem, ela necessariamente fará o bem. Ela só faria o mal caso ignorasse o bem. Contudo, quando olhamos para a realidade, não é exatamente isso que vemos. Muitas pessoas conseguem agir mal voluntariamente. Basta lembrarmos o que diz São Paulo (Rm 7, 19): “Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero”.
Entretanto, Sócrates poderia argumentar que a pessoa ainda não conheceu profundamente o bem, e que, se conhecesse, jamais agiria assim. De fato, quanto mais conhecemos o bem, menores são as chances de fazermos o mal. Porém, o simples fato de conhecer o bem não nos obriga automaticamente a praticá-lo. Ainda possuímos liberdade para escolher entre o bem e o mal. Essa liberdade não é eliminada.
Portanto, a argumentação de Sócrates é compreensível e faz sentido em muitos aspectos, contudo, quando olhamos para a realidade concreta, percebemos que a questão não é tão determinística assim.
Conclusão
A importância de Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) não está apenas em suas ideias, mas também na vida que levou em coerência com elas. Morreu como mártir da verdade, tornando-se o grande protótipo do filósofo.
Platão (428 a.C. – 348 a.C.), seu discípulo mais brilhante, assumirá sua missão e a levará a novos patamares, sistematizando aquilo que, em Sócrates, ainda aparecia de forma fragmentada. A filosofia ocidental é impensável sem esse ponto de partida. Sócrates marca a separação definitiva entre filosofia e sofística, entre verdade e aparência, entre vida reta e astúcia verbal. Introduz novos termos que acompanharão a filosofia até os nossos dias. Mas, depois dele, vem um maior ainda.
No próximo artigo estudaremos Platão, o grande discípulo de Sócrates, que soube, a partir da tradição filosófica herdada pelos pré-socráticos e Sócrates, inaugurar uma nova etapa da filosofia com a segunda navegação, que é a fundação da metafísica.