Por: Paulo Vitor
Introdução
Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) marcou a história da Filosofia, e mais, marcou a história da humanidade. Contudo, sem o seu fiel discípulo, Platão (427 a.C. – 347 a.C.), provavelmente não conheceríamos as suas obras. Platão foi um discípulo que se tornou maior que o seu mestre. Enquanto Sócrates focava no homem, na alma e na ação humana, que correspondiam às “disciplinas” de antropologia, psicologia e ética, Platão aprendeu isso com seu mestre, entretanto, quis ir mais além. Também herdou a tradição filosófica dos pré-socráticos. De algum modo, Platão também se interessava pela arché, pelo princípio de todas as coisas. Neste artigo falaremos sobre a filosofia platônica. Mas, antes, vamos entender um pouco sobre quem foi Platão.
Vida e obra
Platão (427 a.C. – 347 a.C.) nasceu em Atenas, em uma família aristocrática. Seu nome verdadeiro era Aristócles, mas ficou conhecido pelo apelido “Platão”, possivelmente por causa de seus ombros largos (platos, em grego). Como já disse antes, foi discípulo direto de Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) e foi profundamente marcado pela morte de seu mestre. Após a execução de Sócrates (399 a.C.), Platão viajou ao sul da Itália, ao Egito e à Sicília, onde entrou em contato com o pitagorismo e outras correntes místicas. Depois dessas viagens, voltou para Atenas e lá fundou a Academia, considerada a primeira escola de filosofia do Ocidente.
Platão escreveu cerca de 30 diálogos, nos quais apresenta seu pensamento por meio de personagens. Portanto, sua linguagem filosófica é poética. Platão não usa termos extremamente precisos para expressar aquilo que quer dizer; ele usa alegorias. Quase sempre, Sócrates aparece como figura central. Desse modo, seus escritos não são tratados sistemáticos, mas dramatizações dialógicas, nas quais a filosofia aparece como busca viva da verdade.
A visão de Platão sobre a Filosofia
Para Platão, a filosofia não é apenas um exercício intelectual, mas um caminho de purificação da alma, uma preparação para a morte, entendida não como destruição, mas como libertação da alma em relação ao corpo. Assim, a vida filosófica é, por excelência, vida moral e contemplativa, orientada para o Bem e para o verdadeiro conhecimento. O filósofo é aquele que está na busca pela perfeição. Se injetarmos um pouco de cristianismo aqui, o filósofo é aquele que busca a “santidade”. Bom, agora vamos entender o que Platão desenvolveu em sua doutrina filosófica.
A Teoria das Ideias
É impossível compreender a doutrina platônica sem entender a sua principal teoria: a Teoria das Ideias ou Formas. Essa é a base de todo o edifício filosófico de Platão, é como se fosse a sua espinha dorsal. Segundo Platão, há dois mundos: o mundo sensível, que é o mundo que podemos observar com os nossos sentidos, composto de coisas materiais, mutáveis e imperfeitas; e o mundo inteligível, invisível, eterno, imutável e perfeito, onde habitam as Ideias ou Formas, que são os arquétipos das coisas. Sendo assim, Platão divide a realidade em inteligível e sensível. Aqui vemos uma dualidade platônica, e essa dualidade estará presente em outras questões, como corpo e alma, virtude e vício, e assim por diante.
Agora, para tentar explicar o mundo das ideias e o mundo sensível, darei um exemplo: todas as belas coisas participam da Ideia de Beleza; todas as coisas justas participam da Ideia de Justiça. É como se, no mundo das ideias, existisse a ideia de bem, de beleza e de justiça, e lá essas coisas fossem perfeitas e imutáveis. Ali estaria o que de fato é o Bem, a Beleza e a Justiça. Já o bem, a beleza e a justiça aqui neste mundo seriam apenas cópias imperfeitas dessas Ideias. Neste mundo nunca veremos o bem, a beleza e a justiça perfeitos, porque este mundo é imperfeito. As coisas apenas se aproximam mais ou menos da Ideia.
E aqui vale dizer algo que nos ajuda a compreender melhor ainda a filosofia platônica: para Platão, essas Ideias não são meros conceitos mentais, mas realidades objetivas e transcendentes, que existem independentemente do pensamento humano. Ou seja, essa ideia não é apenas um conceito abstrato, como uma definição de dicionário; é de fato um ente que existe, uma Forma. Entrando um pouco na epistemologia platônica, para Platão o verdadeiro conhecimento (episteme) é aquele que atinge essas realidades, e não as meras opiniões (doxa) sobre o mundo sensível. Essa doutrina não é um mero idealismo. É, na verdade, uma forma de realismo metafísico, que busca um fundamento estável para as coisas mutáveis. É um realismo exagerado? Sim. Porém, esse foi um grande passo metafísico para a filosofia. Depois, Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) fundamentará melhor a metafísica, mas, sem Platão, provavelmente Aristóteles não teria conseguido chegar aonde chegou.
O mito da caverna
Para ilustrar a doutrina platônica, vou contar a alegoria que o próprio Platão utilizou para explicá-la: o mito da caverna. Presente no livro VII da obra A República, essa alegoria é uma das imagens mais belas e profundas da filosofia antiga.
Alguns homens estão presos dentro de uma caverna. Estão acorrentados olhando para o fundo da caverna e só podem olhar para esse mesmo lugar. Atrás deles existe uma fogueira e pessoas trabalhando, produzindo barulhos e sombras. Eles conseguem ouvir tudo e também enxergam as sombras projetadas no fundo da caverna. Ou seja, não veem as coisas como realmente são; apenas enxergam sombras.
Então um dos homens consegue se libertar e começa a subir para fora da caverna. Desse modo, progressivamente ele vai conhecendo as coisas como de fato elas são. Percebe que existe uma fogueira, que existem pessoas trabalhando, e continua subindo, até sair da escuridão da caverna e se deparar com a luz do sol. A princípio, essa luz o cega. Entretanto, com o tempo ele vai se acostumando e então enxerga a beleza das coisas externas à caverna. Transformado por aquilo que viu, decide voltar para a caverna e contar aos outros prisioneiros sobre o que conheceu. Mas, depois de contar, é taxado de louco e morto pelos outros prisioneiros.
O que esse mito quer dizer? A caverna é o mundo sensível. Estamos presos aqui, acorrentados pelos sentidos, vendo apenas sombras, sem conhecer as coisas como realmente são. A partir do momento em que nos libertamos dos sentidos, começamos um caminho de ascese em direção ao mundo inteligível. Então deixamos a doxa (opinião) para alcançar a episteme (conhecimento). Quando enfim saímos da caverna, somos iluminados pela Ideia do Bem, que seria o equivalente a Deus na filosofia platônica. Então contemplamos a verdade, e esse é o objetivo da nossa vida. Mas também devemos levar outros a contemplarem a verdade. Assim, o homem desce novamente ao mundo sensível para levar os outros ao conhecimento da verdade, mas acaba morto por aqueles que não estavam preparados para conhecer. De certo modo, aqui Platão simboliza a jornada de Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.).
A cosmologia platônica
Se vocês acharam Platão um pouco confuso até aqui, agora provavelmente ficarão mais impressionados ainda. Para Platão, o princípio de todas as coisas é a Ideia do Bem, que é o Ser Supremo. Esse ser é o criador do mundo inteligível, que é perfeito, porque esse ser é perfeito e não admite imperfeição em si. Contudo, esse ser perfeito não pode criar diretamente aquilo que é imperfeito, que é o mundo sensível. Então ele cria a díade, um ser capaz de contemplar as Ideias presentes no mundo inteligível, Ideias essas que estão na Ideia do Bem. Depois, a díade informa essas Ideias ao demiurgo, e então o demiurgo cria o mundo sensível como uma cópia imperfeita do mundo inteligível.
Sendo assim, para Platão o mundo sensível é apenas uma cópia do mundo inteligível feita pelo demiurgo. Aqui está a “trindade” platônica. Muitos dos primeiros cristãos se entusiasmaram quando viram esse aceno à Santíssima Trindade, e não é à toa que a filosofia platônica ganhou muitos adeptos cristãos. Mas é evidente que essa “trindade” platônica não tem relação direta com a Santíssima Trindade cristã.
A psicologia platônica
Psicologia, antes de mais nada, é o estudo da alma. Essa é a definição original do termo. Mas, quando a psicologia surgiu como ciência moderna, paulatinamente ela foi assumindo outra definição.
Dito isso, para Platão o homem é essencialmente uma alma racional unida a um corpo. A alma é imortal e divina; o corpo é uma prisão passageira. E detalhe: para Platão, é ruim para a alma estar unida ao corpo, pois o corpo limita suas capacidades de conhecer. Sendo assim, a união da alma com o corpo é vista como um mal.
Para ele, a alma é composta de três partes: razão, que busca o verdadeiro e governa as demais; vontade, sede da coragem e da fortaleza; e apetite, ligado aos desejos e instintos. A justiça na alma consiste na harmonia entre essas três partes, com a razão governando.
Outro ponto muito polêmico é que Platão considera que a alma humana, antes de encarnar, habitava o mundo das ideias. Ao encarnar, ela esquece essas realidades, mas pode relembrá-las por meio do exercício filosófico. Assim, conhecer é recordar (anamnesis), e a educação consiste em despertar a alma para aquilo que ela já conheceu. Essa teoria mostra a influência do pitagorismo na doutrina platônica da alma.
E não só isso: a alma, sendo imortal, pode ficar presa em outro corpo, e isso pode se repetir infinitas vezes. Isso, sem dúvida, vai contra a própria compreensão da razão, e esse é um dos pontos em que Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) rompe com Platão.
A política platônica
A obra A República é uma das mais influentes de toda a filosofia. Nela, Platão descreve a cidade ideal como imagem da alma justa. A justiça, tanto na alma quanto na cidade, consiste em cada parte cumprir sua função: os sábios governam, os guerreiros protegem e os trabalhadores sustentam.
Platão não defende a utopia como um regime histórico plenamente viável, mas propõe um modelo ideal de ordem, no qual a vida política é subordinada à ordem moral e metafísica. Para ele, o verdadeiro governante é o filósofo-rei: aquele que conhece o Bem e governa em vista dele. A degradação dos regimes políticos segue uma hierarquia decrescente: aristocracia, timocracia, oligarquia, democracia e, por fim, tirania.
Conclusão
De modo geral, Platão sempre excede um pouco. Mas isso não tira a grandiosidade do seu método. Sem dúvida, ele fez com que a filosofia desse largos passos e preparou o caminho para que Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) pudesse ser mais assertivo e utilizar uma linguagem mais precisa, sem exagerar tanto nas alegorias.
Como disse, nada tira a influência que Platão exerceu. Ela foi imensa. Foi retomado pelos neoplatônicos, como Plotino (204–270); pelos Padres da Igreja, como Santo Agostinho (354–430); por grandes místicos, como Pseudo-Dionísio Areopagita (séc. V–VI); e pela filosofia medieval, que, embora mais aristotélica em Santo Tomás de Aquino (1225–1274), jamais abandonou inteiramente a herança platônica.
Platão ensinou que a realidade visível aponta para outra maior; que a alma é capaz de conhecer a verdade; que o Bem é superior a tudo; e que o filósofo deve ser guia da cidade não por ambição, mas por amor à justiça. Em Platão vemos um sistema filosófico completo — talvez não tão estruturado, mas sem dúvida completo. Estruturado e completo será o sistema de Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), que veremos no próximo artigo.