O QUE É SER LEIGO NA IGREJA?

Por: Thais Yonezawa de Paula Oliveira

A Encíclica Christifideles Laici é muito clara sobre o verdadeiro papel do leigo. João Paulo II apresenta uma visão do leigo muito mais ampla do que simplesmente alguém que ajuda nas pastorais da paróquia.

1. Quem é o leigo?

De modo geral: o fiel leigo é o cristão batizado que não pertence ao clero nem ao estado religioso reconhecido pela Igreja.

A Christifideles Laici, no nº 9, retoma a definição do Concílio Vaticano II: são aqueles que, incorporados a Cristo pelo Batismo, participam da missão de todo o povo cristão, “na Igreja e no mundo”.

E há algo muito bonito aí: o leigo não é um “cristão de segunda categoria”. Pelo Batismo, possui uma dignidade e uma missão próprias.

2. E onde está o campo principal da missão do leigo?

João Paulo II diz que a característica própria da vocação do leigo é a “índole secular”.

Ou seja: o leigo é chamado por Deus a viver sua vocação cristã justamente no meio do mundo.

Ele não precisa sair do mundo para encontrar sua missão.

A Encíclica diz:

“O Batismo não os tira de modo nenhum do mundo.”

E explica que os leigos são chamados a santificar o mundo a partir de dentro, como o fermento.

Então:

  • o pai e a mãe santificam a família;
  • o profissional santifica o ambiente de trabalho;
  • o empresário pode exercer sua profissão segundo princípios cristãos;
  • o professor pode transformar a educação;
  • o artista pode evangelizar através da cultura;
  • o cidadão pode atuar na sociedade;
  • o político cristão deve buscar o bem comum;
  • o jovem pode testemunhar Cristo na universidade;
  • o cristão nas redes sociais pode levar a verdade e a caridade para aquele ambiente.

Isso tudo é missão da Igreja.

E não é uma missão “menos importante” porque acontece fora da paróquia.

3. E aqui está uma coisa muito importante: não é exatamente “se sobrar tempo, vou para a pastoral”

A pastoral paroquial é uma forma legítima e importante de participação do leigo na missão da Igreja, mas não é o centro exclusivo nem necessariamente o campo principal da vocação laical.

Na verdade, a Christifideles Laici faz uma advertência muito interessante justamente sobre isso.

No nº 2, João Paulo II menciona como uma das tentações dos leigos a possibilidade de se preocuparem excessivamente com serviços e tarefas eclesiais, chegando a abandonar suas responsabilidades específicas no mundo profissional, social, econômico, cultural e político.

Isso é fortíssimo.

Ou seja, pode acontecer uma inversão:

“Estou fazendo tanta coisa dentro da Igreja que não estou mais cumprindo minha missão cristã no mundo.”

E isso não corresponde à vocação própria do leigo.

4. Mas cuidado para não inverter também a questão

“Primeiro faço minhas coisas no mundo; se sobrar tempo, ajudo a Igreja.”

Porque isso pode dar a impressão de que a participação na vida da Igreja é secundária ou opcional.

A lógica da Encíclica é mais bonita:

O leigo pertence plenamente à Igreja e participa da missão da Igreja tanto na própria Igreja quanto no mundo — mas possui uma vocação específica de transformar as realidades temporais segundo Deus.

Por isso, participar de uma pastoral, catequese, conselho, movimento, ministério ou apostolado pode ser uma excelente expressão da vocação de um determinado leigo.

Só não podemos dizer que “ser leigo” significa essencialmente trabalhar em pastoral.

5. Um exemplo bem simples

Imagine uma mulher católica que:

Domingo: vai à Missa.
Segunda a sexta: trabalha numa empresa.
Em casa: é esposa, mãe e avó.
Na sociedade: participa das decisões da comunidade.
Na profissão: age com honestidade e justiça.
Nas amizades: testemunha sua fé.
Nas redes sociais: comunica o bem e a verdade.
Na paróquia: participa eventualmente de uma pastoral.

Ela não é “menos leiga” porque não está toda semana numa pastoral.

Pelo contrário: ela está exercendo precisamente aquela dimensão secular da vocação laical que a Christifideles Laici enfatiza.

E João Paulo II chega a dizer que a vida profissional, familiar e social cotidiana deve ser vista como ocasião de união com Deus, cumprimento da vontade de Deus e serviço aos outros.

6. E há uma frase da Encíclica que resume tudo

No nº 17, aparece uma ideia que considero especialmente importante:

o leigo deve santificar-se na vida profissional e social normal.

Ou seja, não existe uma separação entre “minha vida cristã” e “minha vida normal”.

Não é:

Igreja → minha vida cristã
Trabalho/família/sociedade → minha vida particular

É:

Cristo → toda a minha vida.

E isso inclui família, profissão, cultura, economia, política, sociedade, descanso, amizades etc.

7. E isso explica uma coisa muito interessante sobre pastorais

No nº 23, a Encíclica reconhece explicitamente que os leigos podem exercer ministérios, ofícios e funções dentro da Igreja, de acordo com sua condição e as necessidades da Igreja. Mas João Paulo II faz questão de lembrar que exercer uma determinada função eclesial não transforma o leigo em sacerdote ou pastor.

Portanto:

Leigo ≠ pessoa que ajuda na pastoral.

É muito mais amplo:

Leigo = fiel batizado, plenamente membro da Igreja, chamado a participar da missão de Cristo, com uma vocação própria de levar o Evangelho para dentro das realidades temporais.

E aí está, na minha opinião, uma das grandes riquezas da Christifideles Laici.

Se eu resumisse em uma frase:

“O leigo não existe para ocupar um espaço vazio dentro da Igreja; ele é chamado a levar Cristo para dentro do mundo.”

E isso combina perfeitamente com a imagem que João Paulo II usa desde o início: a vinha do Senhor é o mundo inteiro. Leia a íntegra da Christifideles Laici no site oficial do Vaticano