Setembro — Mês da Bíblia

Por: Paulo Vilar

É comum ouvir pessoas dizendo que os católicos não leem as Sagradas Escrituras e (pior!) que a Igreja Católica sempre fez o que pôde para impedir — ou, ao menos, dificultar — o acesso dos fiéis à Bíblia.

A primeira afirmação, infelizmente, até pode ter um certo quê de verdade (sobretudo se considerarmos os inúmeros “católicos de IBGE”); a segunda, porém, não passa no teste da história. Com efeito, a Igreja Católica não só incentiva a leitura dos textos sagrados, como também foi a instituição que os guardou por séculos para que eles chegassem até os dias atuais.

Antes de tratar da segunda questão acima, convém lembrar que em muitos países, como o Brasil, em todos os anos, o calendário católico dedica o mês de setembro à Bíblia. Isso acontece porque, no dia 30 de setembro, celebra-se o dia de São Jerônimo, que traduziu a Bíblia dos idiomas originais (hebraico e grego) para o latim. Entretanto, como um só dia é pouco para celebrar a Palavra de Deus, cuja leitura é de vital importância para nós, a Igreja estende essa celebração para o mês todo. Essa tradição se consolidou, em nosso país, a partir de 1971, quando a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) oficializou setembro como o Mês da Bíblia.

Como se vê, não procede, de forma alguma, a afirmação de que a Igreja Católica seria contra a leitura das Sagradas Escrituras pelos leigos. Isso nunca ocorreu! Tanto é que São Jerônimo (347–420), no final do século IV d.C., traduziu os livros bíblicos para o latim vulgar, que era a forma mais difundida da língua em questão, ou seja, era a forma do latim falada pelo povo em geral (a palavra vulgus significa justamente povo, sem o sentido pejorativo que essa expressão muitas vezes tem). Vale dizer, enquanto o latim clássico era a forma culta da língua, usada pelos escritores e pela elite romana, o latim vulgar era falado pelo povo em geral, incluindo os comerciantes, os camponeses, os soldados e os trabalhadores mais humildes. Essa versão da Bíblia ficou conhecida como Vulgata, palavra que significa popular (do povo).

Ora, se a Igreja Católica quisesse mesmo que as pessoas comuns ficassem sem acesso aos textos sagrados, por que o Papa Dâmaso I, que incumbiu São Jerônimo de vertê-los para o latim, autorizaria o uso, na tradução, da versão popular dessa língua? Além disso, o pedido do Papa tinha como fundamento o fato de que — como existiam, naquela época, várias traduções latinas dispersas, confusas e cheias de erros, inclusive teológicos — a Igreja Católica queria uma versão única e confiável, tendo São Jerônimo ido direto aos textos originais, escritos em hebraico e grego, a fim de garantir uma tradução mais fiel e clara. Como se percebe, a Igreja Católica, na condição de mãe e mestra da família humana, pretendia tornar os textos bíblicos originais mais acessíveis a todos, não apenas ao restrito círculo dos intelectuais.

É falso, portanto, o argumento bastante difundido de que foi Lutero quem, remando contra o catolicismo, traduziu a Bíblia para o povo. A propósito, Lutero não foi sequer o primeiro a traduzir a Bíblia para o alemão, pois, antes mesmo de ele nascer, um conterrâneo seu, Johannes Mentelin (não confundir com Johannes Gutenberg, outro alemão e inventor da imprensa de tipos móveis), em 1466, imprimiu e publicou a primeira Bíblia em língua alemã. Martinho Lutero só nasceria alguns anos depois, em 1483.

Outro mito bastante disseminado é o de que toda a Revelação divina está contida na Bíblia — é o velho “dogma” da Sola Scriptura. Tanto isso não é verdade que a própria Bíblia não apresenta a lista de quais livros foram escritos por inspiração divina e quais não foram, ou seja — e isto é de suma importância —, nenhum dos livros nela contidos define o cânon bíblico (o rol taxativo dos livros sagrados). Pelo contrário, o próprio discípulo amado (São João) deixa a questão bastante aberta ao encerrar o seu Evangelho dizendo: “Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que não caberiam no mundo os livros que seriam escritos” (Jo 21,25).

Toda a doutrina cristã que foi ensinada nos primeiros séculos veio da tradição, passada de geração a geração. Basta ver que o primeiro documento escrito do Novo Testamento — e, portanto, do Cristianismo —, a Primeira Carta aos Tessalonicenses, foi redigido apenas no ano 50 ou 51 d.C. Se os textos sagrados fossem realmente a única referência infalível da fé dos cristãos, então poderíamos dizer que, entre a morte e a ressurreição de Cristo (ocorridas por volta do ano 30) e o surgimento do primeiro livro do Novo Testamento (como dito, a Primeira Carta aos Tessalonicenses), não teria havido nenhuma vivência da fé cristã, ou seja, durante um período de cerca de duas décadas, teria havido um completo hiato na história cristã.

É claro que isso é um absurdo! Foi preciso, portanto, uma autoridade extrabíblica — a Igreja Católica, representada principalmente pelos bispos, sucessores dos apóstolos, em comunhão com o Papa — que definisse, com base na Tradição, quais textos então considerados sagrados deveriam, de fato, ser tidos como inspirados por Deus. Isso se deu no final do século IV d.C, muito antes da equivocada doutrina da Sola Scriptura surgir, o que ocorreu apenas no século XVI.

O que a Igreja Católica sempre condenou — e ainda condena — é o chamado “livre exame” das Sagradas Escrituras; ou seja, embora os católicos sejam incentivados a ler a Bíblia, todos devem ter em mente que qualquer interpretação individual, quando incompatível com o que ensina o Magistério da Igreja, é sempre mera especulação e, muitas vezes, tão perigosa a ponto de poder dar ensejo a grandes heresias.

Em suma, os católicos leem, sim, a Bíblia — ao menos os mais zelosos —, entretanto o fazem com a necessária humildade, colocando-se sempre abaixo do magistério daquela autoridade querida e instituída pelo próprio Deus encarnado (Jesus Cristo): a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana (Mt 16,17-19).