Por: Paulo Vilar
“O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia, e o que vos digo ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados” (Mt 10,27)
A palavra equivaler vem do latim (aequivalere) e é formada pela união do prefixo aequus (que significa igual) com o verbo valere (que significa valer, ter valor), ou seja, a palavra equivaler tem o sentido de ter o mesmo valor ou ter valor igual. Assim, o substantivo equivalência significa, literalmente, igualdade de valor.
Digo isso porque, principalmente em épocas de eleição, é comum ouvir as pessoas dizerem frases do tipo: “Todo político é igual”; “Todos são igualmente corruptos”; “Todos só pensam nos próprios interesses”; “Tanto faz votar no Chico ou no Francisco”; “Na política só tem tranqueira” etc. Infelizmente, em relação a determinados políticos ou partidos, tais pessoas não deixam de ter uma certa razão, mas quando a questão é analisada mais a fundo, percebemos que isso é verdadeiro apenas até a página 2. Com efeito, sobretudo para nós católicos, fazer falsas equivalências entre partidos ou candidatos pode constituir um grave erro. É preciso salientar que a sensatez confere ao indivíduo o senso das proporções e, por conseguinte, o torna capaz de escolher, entre dois ou mais males, aquele que é menor.
Como é sabido e consabido, o católico deve orientar o seu voto segundo alguns critérios que são absolutamente inegociáveis para a doutrina católica, observado que há matérias a respeito das quais é possível fazer concessões. Qualquer pessoa que tenha o mínimo de bom senso consegue, sem muita dificuldade, perceber que entre os bens tutelados, tanto pelo Direito dos homens quanto pelo Direito Natural (Divino), existe uma hierarquia. Por exemplo: o 5º Mandamento da Lei de Deus (Não matarás) tutela a vida das pessoas; o 7º Mandamento (Não roubarás) tutela o patrimônio delas e o 8º (Não levantarás falso testemunho) protege a honra das pessoas. Evidentemente, violar o 7º ou o 8º desses mandamentos é menos grave que infringir o 5º, pois a vida humana tem mais valor que o patrimônio ou mesmo a honra de uma pessoa.
No Brasil, no segundo turno das eleições para a Presidência da República, invariavelmente temos sido obrigados a escolher, entre dois candidatos ruins, aquele que é o menos ruim (assim mesmo, visto que a expressão menos pior não é correta, até por ser ilógica). Mas, a despeito disso, à luz da doutrina católica, dificilmente teremos, em algum momento, um cenário de segundo turno tão tenebroso a ponto de ambos os candidatos serem igualmente ruins, pois, com base na hierarquia dos valores defendidos pelo Catolicismo, quase sempre será possível identificar aquele que mais se distancia de tais valores e aqueloutro que deles menos se distancia, representando, portanto, um mal maior e um mal menor, respectivamente.
Pois bem. Um dos critérios inegociáveis para os católicos é a questão atinente à dignidade da vida humana, que deve ser respeitada desde a concepção até o seu fim natural. Desse modo, se temos, no segundo turno, dois candidatos com histórico de corrupção, mas um deles, além de (digamos…) ladrão, também é defensor da legalização do aborto — pecado terrível que atenta contra a vida humana inocente mais vulnerável e que clama aos Céus por justiça —, enquanto o outro se posiciona contra, é óbvio que o católico, diante dessa situação, deve votar no candidato que, embora também corrupto, seja contrário à legalização do aborto. Veja que o dinheiro (objeto do pecado do roubo/furto/corrupção), na hierarquia de valores, está abaixo da vida humana (objeto do pecado do aborto). Isso sem falar que, mesmo analisando os candidatos apenas sob o prisma da corrupção, não se deve jamais fazer uma falsa equivalência entre um “ladrão de galinha” e um líder mafioso, ou entre alguém que roubou alguns milhões para fins pessoais e outro que roubou diversos bilhões, tanto para fins pessoais como para dar continuidade a um nefasto projeto de poder.
Também é fato notório que, em época de campanha eleitoral, os candidatos tentem esconder algumas pautas por eles defendidas, por serem medidas impopulares, por mais que, segundo a sua ideologia e nos bastidores, eles as defendam ferrenhamente. Assim, como a legalização do aborto é, no Brasil, um tema bastante impopular, mesmo políticos ou partidos que trabalham avidamente pela sua legalização, na época das eleições, tendem a mentir para o eleitor, dizendo que não apoiam a causa abortista.
E aqui é preciso ser bem honesto com o leitor e dar nome aos bois. Recentemente, no final de junho ou início de julho de 2026, o Partido dos Trabalhadores (PT) organizou um encontro com católicos e decidiu publicar uma “Carta aos Católicos” a fim de reforçar o diálogo com esse eleitorado e tentar atrair o público religioso para obter a reeleição do presidente Lula. Segundo um dos petistas que coordenaram essa aproximação com o eleitorado católico, Gutierres Barbosa, a questão relativa ao aborto é um assunto superado internamente no partido.
Entretanto, é preciso bom senso e não acreditar em histórias da carochinha. Não podemos simplesmente esquecer o papel que o PT e as lideranças do partido tiveram — e ainda têm — no avanço da causa abortista no Brasil. A esse respeito, lembremos que, poucos dias após a sua posse (ocorrida em 1º/01/2023), no dia 17/01/2023, portanto menos de um mês após o início do seu terceiro mandato, o governo Lula retirou o Brasil do acordo internacional chamado Consenso de Genebra, que é uma aliança internacional, criada em outubro de 2020, assinada por países dos cinco continentes, de cunho conservador e contrária à legalização do aborto, cujo documento constitutivo chega a afirmar “que não existe direito internacional ao aborto”. Por que o PT teria tomado essa medida de forma tão rápida se ele não fosse favorável à legalização do aborto e contrário àqueles que atuam na causa pró-vida?
Além disso, o Partido dos Trabalhadores (PT), na contramão do que preceitua o Consenso de Genebra, publicou, em 30/12/2020, em sua página oficial (pt.org.br), um artigo em que seus integrantes comemoraram, naquela oportunidade, a legalização do aborto na Argentina, com o título Madrugada Histórica: Argentina Aprova a Legalização do Aborto (vide em “https://pt.org.br/madrugada-historica-argentina-aprova-a-legalizacao-do-aborto”). A então Secretária Nacional de Mulheres do PT, Anne Moura, afirmou textualmente: “Essa vitória faz parte da luta internacional das mulheres para a garantia do aborto legal, seguro e gratuito. Nossas hermanas acendem a chama feminista na América Latina”.
Outro exemplo está no artigo intitulado Juliana Cardoso: a Luta por Autonomia sobre Nossos Corpos em Tempos de Recesso Democrático (conferir em “https://pt.org.br/juliana-cardoso-a-luta-por-autonomia-sobre-nossos-corpos-em-tempos-de-recesso-democratico”), publicado 28/9/2019, em que se lê, no primeiro parágrafo, o seguinte: “Hoje é dia de luta das mulheres pelo direito de decidir sobre seus corpos. Hoje é dia de lembrar das que morreram em decorrência da clandestinidade e de afirmar, ante a onda conservadora e misógina que assola nosso país e deforma nossas instituições, que nós mulheres não arredaremos pé da luta pela legalização do aborto” (negrito meu). Se o leitor quiser, pode ele mesmo entrar no site do PT (pt.org.br) e, na barra superior, clicar na aba Notícias e, depois, dentro do menu que se abrir, clicar na opção Mulheres, a fim de encontrar, pesquisando com muita paciência, outros artigos em que a defesa do aborto é explícita ou quase isso. Ali pululam as ideias do feminismo radical.
Além desses exemplos, em abril de 2022, viralizou nas redes sociais um vídeo, gravado durante um evento do PT, em que Lula, bastante à vontade, diz que “o aborto deveria ser transformado numa questão de saúde pública e todo o mundo ter direito (de praticá-lo) e não ter vergonha” (vídeo disponível em “https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/lula-defende-aborto-questao-de-saude-publica”). Ele ainda afirma, no vídeo em questão, que “essa pauta da família e dos valores (tradicionais) é uma coisa muito atrasada”. Como isso, em ano eleitoral, pegou (claro!) muito mal, logo o próprio Lula tratou de se desdizer.
Outro artigo bastante interessante sobre a ligação umbilical do atual governo do PT e a pauta abortista está em “https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/acoes-pro-aborto-do-governo-lula-vao-de-sugestao-a-gestantes-a-lobby-internacional”. Nele existe um resumo das ações pró-aborto ocorridas no assim chamado “governo Lula 3”.
Percebe-se, dessa forma, que, ao menos para nós católicos, fazer uma falsa equivalência entre partidos de esquerda, como o PT, e partidos de direita, que se opõem ao aborto, em nada contribui para o debate político sério e bem fundamentado. É óbvio que nós católicos não podemos concluir que votar num determinado candidato ou partido que, embora não seja o ideal, se opõe totalmente à legalização do aborto é o mesmo que votar em um que envida todos os esforços para que essa prática abjeta seja normalizada, ainda que, em público, eles neguem a defesa dessa causa.
Dito isso, prezados leitores, é chegada a hora de separar os adultos das crianças, os católicos de verdade dos católicos “de IBGE”, e dizer, sem medo algum, que, no Brasil de hoje, qualquer tentativa de igualar o PT a qualquer partido não esquerdista que venha a disputar as eleições com ele, quer no primeiro, quer no segundo turno, não passa de uma odiosa falsa equivalência. O católico deve opor-se vigorosamente à vitória do PT, votando em seu adversário, seja ele quem for, a menos que este seja tão esquerdista quanto o próprio PT, o que, pelo andar da carruagem, tem tudo para não acontecer nas próximas eleições.
Antes que alguém apresente alguma objeção a estas ponderações, é preciso deixar claro que, se é verdade que a Igreja Católica não possui vínculo com nenhum partido, é também verdade que nós católicos, inclusive leigos, não só podemos, como devemos orientar os fiéis de boa vontade sobre como votar em conformidade com os preceitos da nossa religião, até mesmo citando expressamente o nome de partidos que, por defenderem valores anticristãos, não podem, de forma alguma, receber o nosso voto. Vale dizer, não devemos indicar em quem votar, mas devemos dizer, sem rodeios, em quem não votar.
Em suma, o voto no Partido dos Trabalhadores (PT), para nós católicos, não é jamais uma opção legítima.
Que São Miguel Arcanjo, chefe da Milícia Celeste, nos proteja no combate e nos livre da praga do socialismo/comunismo, bem como do flagelo do aborto!
Amém!