A Igreja Católica Precisa Mesmo de Uma Nova Narrativa?

Há pouco mais de um ano, li um artigo de jornal na internet em que um famoso publicitário sugeria que a Igreja Católica, para atrair novos adeptos, deveria adotar uma nova narrativa, adaptando-se aos tempos modernos.

É impressionante como algumas pessoas, por serem muito bem-sucedidas em sua área de atuação profissional, se acham em condições de opinar sobre tudo, incluindo aqueles assuntos em que demonstram uma ignorância abissal. Sem dúvida alguma, e com todas as vênias, é o caso desse publicitário, o qual diz ser um “estrategista que estuda a Bíblia” (sic). Resta saber que Bíblia ele anda estudando… a católica parece não ser.  

Com efeito, no capítulo 6º do Evangelho de São João, na parte que trata do Pão da Vida, após ouvirem um discurso pesado que não lhes agradou, muitos dos que seguiam a Cristo resolveram abandoná-lo. A reação de Cristo foi, além de não impedi-los de ir embora, voltar-se para o grupo dos Doze e dizer: “Vocês também querem ir embora?”. Simão Pedro respondeu, com a sapiência que lhe era peculiar: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna.” (Jo 6,66-68). Talvez, agora no século XXI, Cristo fosse mais sábio e desse ouvidos à opinião desse marqueteiro genial. Diria ele: “O que é isso, Jesus? Pega leve com a clientela, meu chapa! Precisamos atrair o público, e não afugentá-lo.”. E Cristo, humilde que era, acataria, docilmente, a grande sugestão do gênio do marketing, cujo único defeito foi não ter nascido, na Palestina, há 2.000 anos a fim de prestar assessoria ao pobre e ignorante Cristo.

Em outra oportunidade, Cristo disse aos seus discípulos, após enviá-los dois a dois a pregar: “Se alguém não os receber bem e não escutar a palavra de vocês, ao sair dessa casa e dessa cidade, sacudam a poeira dos pés. Eu garanto a vocês: no dia do julgamento, as cidades de Sodoma e Gomorra serão tratadas com menos rigor do que essa cidade.” (Mt 10,14-15). É claro que, nos dias de hoje, muito bem assessorado pelo mais sábio dos homens, o grande e sempre prestativo marqueteiro estudioso da Bíblia, Cristo agiria de outra forma, não é mesmo?! Afinal, quanta intolerância e falta de respeito à diversidade de ideias por parte do pobre Cristo, tão ignorante, coitadinho! Dir-lhe-ia o grande conselheiro: “Aí, Jesus! A parada é a seguinte: se você continuar desse jeito, a sua Igreja vai sofrer muito cancelamento, tá ligado!? Assim não dá! Vamos reformular a doutrina pra ganhar seguidores, pô! Estamos mais ou menos com um bilhão de adeptos nas redes sociais, mas essa parada aí de não poder fornicar, não poder abortar, não poder votar em esquerdista, de condenar o homossexualismo, entre outras causas antiquadas, está sujando o nosso lado. Assim, não vamos nunca bater a meta de chegar a dois bilhões de seguidores, maluco!”.

E o que dizer de São Paulo, outro infeliz desconhecedor das sábias estratégias de marketing? Esse insolente teve a ousadia de profetizar: “Pois vai chegar o tempo em que não se suportará mais a doutrina; pelo contrário, com a comichão de ouvir alguma coisa, os homens se rodearão de mestres a seu bel-prazer. Desviarão seus ouvidos da verdade e os orientarão para as fábulas.” (2Tm 4,3-4). Hoje, esse publicitário (que é, simplesmente, o cara!) diria a São Paulo: “Seus problemas terminaram!!! Se a galera não quer mais dar ouvidos a vocês, nossa empresa de marketing, conhecida como Organizações Tabajara, tem asolução: basta fazer uma atualização da doutrina, uma espécie de rebranding da marca Catolicismo, tá ligado?!Assim, poderemos mudar nosso approach com o público, valeu?! Senão, já era, brother!”.

Estou sendo irônico, evidentemente (e que Deus me perdoe se em algum momento soei blasfemo!), mas é para mostrar que, por trás dessas supostas boas intenções de pessoas novidadeiras, há, no fundo, aquela nefasta vontade que muitos católicos (se é que se pode chamá-los assim…) têm de mudar a doutrina, como se a Igreja tivesse a obrigação de alterá-la para adequá-la aos nossos vícios e imperfeições. Como se a porta estreita tivesse de ser alargada para passarmos por ela sem nos esforçarmos para ficar livres da imensa “gordura” de pecados que carregamos conosco. Não é a Igreja que deve mudar para se moldar aos nossos caprichos e limitações; nós é que devemos envidar esforços para, com a graça santificante que vem de Deus, alcançar as virtudes que a Igreja ensina, assim como buscar a Verdade, sem a qual seremos sempre meros escravos da iniquidade (Jo 8,32). E a Verdade (com “v” maiúsculo) jamais muda: “O céu e a Terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.” (Mc 13,31).

Pode parecer muito difícil seguir fielmente o Catolicismo tal como ele é, e não como gostaríamos que ele fosse (e, de fato, é mesmo!), mas a grande questão é que Cristo nunca prometeu facilidade aos seus discípulos. Pelo contrário, são suas as seguintes palavras: “… quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo e tome a sua cruz…” (Mt 16,24), assim como: “…Neste mundo vocês terão aflições, mas tenham coragem; eu venci o mundo.” (Jo 16,33). 

Como dizia São Gregório Nazianzeno (329 d.C. – 390 d.C.): “Voluntas Dei, Pax Nostra” (a vontade de Deus é a nossa paz), isto é, fazendo a vontade de Deus (não a nossa), encontramos a (verdadeira) paz.

Outro grande santo, que viveu no século XX (São Maximiliano Kolbe), mostrou-nos a fórmula matemática da felicidade:  v = V. Ou seja, somos felizes quando conformamos a nossa vontade (representada pelo “v” minúsculo) à vontade de Deus (representada pelo “v” maiúsculo).

Nenhum santo, em dois milênios de Catolicismo, jamais pretendeu adequar a doutrina de Cristo para torná-la mais (digamos…) palatável ao mundo, cuja cultura de morte nunca prevalecerá sobre a Sua Igreja (Mt 16,18).

Um grande abraço a todos os nossos leitores!

E viva a Igreja de sempre!