A Porta Estreita

Por Sérgio Vellozo

Muitas realidades que surgem no plano material e psíquico não passam de sintomas visíveis de algo mais profundo que se passa no plano espiritual.

“Se sobrevêm adversidades, não digas: ‘Aconteceu por acaso’. Nada acontece sem Deus. Aprende a reconhecer, em tudo o que te sucede, a pedagogia divina” (São Basílio Magno).

“Os acontecimentos que nos ferem não são sem sentido: são lições que nos convidam a purificar-nos e a elevar o coração a Deus” (São Gregório Nazianzeno).

“As tentações que lhe sobrevêm não são sem razão: são sinais da luta invisível, para que o homem aprenda que não combate contra carne e sangue, mas contra os espíritos do mal” (Santo Atanásio).

Kenosis e Humildade

Assim como Cristo se esvaziou do divino para assumir o humano, cabe ao homem esvaziar-se do humano para estar em Deus.

Quão árduo é acolher esta verdade! Renunciar ao que nos é mais próprio — ao nosso ego, aos nossos apegos, à imagem que cultivamos de nós mesmos — revela-se uma das maiores lutas da existência cristã. O orgulho grita, resiste e se agarra com unhas e dentes.

Uma vez aceito fazer o caminho da renúncia de si, é preciso reconhecer que somos incapazes de realizá-lo por nossas próprias forças. Trata-se de um caminho que se percorre suplicando. Mas só reconhece verdadeiramente esta incapacidade quem tentou com todas as forças e saboreou a amarga derrota. Este sim pode clamar com sinceridade e ardor:

“Jesus, meu Senhor, tem misericórdia de mim, pecador”.

No coração da vida cristã está o mistério da kenosis — palavra paulina que significa o “esvaziamento” de Cristo (Fl 2,7). O Filho de Deus esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição humana e obedecendo até a morte de cruz. Esse esvaziamento voluntário é o modelo perfeito do caminho espiritual: renunciar ao ego inflado para viver na verdadeira humildade.

Os Padres da Igreja frequentemente descreviam o orgulho como uma força que “incha” o homem interior, tornando-o pesado, inchado e incapaz de se elevar a Deus. Quanto mais o ego se expande, mais difícil se torna atravessar a porta estreita da qual falou Jesus:

“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram” (Mt 7,13-14).

O orgulho incha e bloqueia a passagem. A humildade esvazia e abre o caminho.

Paralelos Espirituais com a Luta contra o Peso


Existe um paralelismo profundo e instrutivo entre a luta corporal e a luta espiritual:

  • Peso físico ↔ peso espiritual: assim como o excesso de peso torna o corpo pesado e limitado, o ego inflado pelo orgulho torna a alma lenta, pesada e incapaz de passar pela porta estreita.
  • Emagrecer ↔ esvaziar-se: perder peso exige disciplina, renúncia e sacrifício diário. Da mesma forma, a kenosis espiritual exige humildade e o constante esvaziamento do “eu”.
  • Resistência ↔ luta interior: o corpo resiste à perda de peso; o ego resiste à perda de espaço e importância. Ambas as resistências revelam a mesma batalha espiritual contra a soberba.

Um Sinal dos Tempos

O esforço contemporâneo com o corpo e o peso não é apenas uma questão estética. Aqueles que sofrem intensamente na luta contra o peso corporal são, muitas vezes, um sinal para os outros antes mesmo de ser para si mesmos. Eles se tornam um apelo visível de Deus à sociedade inteira: um lembrete encarnado de que todos carregamos um peso maior — o peso do ego e da vaidade. Como as feridas de Cristo, suas dificuldades expostas falam silenciosamente.

Não foi por acaso que, em 1992, uma revista pagã de grande circulação mundial considerou São Francisco de Assis a personalidade de maior repercussão do milênio que se encerrava: alguém que desposou a pobreza com ardente paixão, conhecido carinhosamente como “o Pobrezinho”, fundador dos Frades Menores. Apenas cinco anos depois, em 1997, o Papa São João Paulo II declarava Santa Teresinha do Menino Jesus Doutora da Igreja. Ela resumia toda a sua doutrina com estas palavras:

“O que agrada ao Bom Deus na minha alminha é Ele ver que amo a minha pequenez e a minha pobreza, é a esperança cega que tenho na Sua misericórdia”.

Esses grandes santos são o contraponto luminoso ao espírito do nosso tempo. Eles nos mostram o caminho: a verdadeira grandeza passa pela humildade radical, pela pobreza voluntária e pelo amor à pequenez.

A dificuldade de perder peso muitas vezes espelha a dificuldade de viver a kenosis cristã. O corpo pesado e o ego inflado revelam a mesma verdade: só nos esvaziando é possível entrar pela porta estreita da humildade e da vida em Cristo.

E você?

Já tentou emagrecer na alma e no coração? Já se dispôs a esvaziar-se e tornar-se pequeno? Já está suplicando ajuda para conseguir?