A Voz dos Papas contra o Comunismo

Por: Paulo Vilar

Não é raro ouvir da boca de católicos — até mesmo de sacerdotes, aí incluídos bispos — que todos devem votar livremente, segundo a própria consciência, e que ninguém deve dar palpite no voto alheio, como se a Igreja Católica não impusesse restrição alguma ao voto dos seus fiéis. Entretanto, trata-se de uma afirmação falaciosa, haja vista que, para ser um autêntico católico, é preciso que o fiel norteie toda a sua vida de acordo com os mandamentos de Deus e com os princípios ensinados pela Igreja. Não basta frequentar a Missa dominical ou mesmo praticar devoções cotidianas, como a oração do santo terço. Até mesmo na hora de depositar o seu voto na urna, o católico tem deveres a cumprir relacionados à sua fé.

O Catecismo da Igreja Católica preceitua que existem 14 (quatorze) obras de misericórdia, sendo sete corporais e sete espirituais. As primeiras (obras de misericórdia corporais) são mais conhecidas: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus etc. Entre as segundas (obras de misericórdia espirituais), infelizmente menos conhecidas, a despeito de não menos importantes, estão: ensinar os que não sabem; dar bom conselho a quem precisa e corrigir os que erram.

Assim, orientar as pessoas em geral e, sobretudo, os irmãos de fé acerca de certas questões relevantes na hora de escolher um partido ou candidato no qual votar, longe de ser uma conduta desrespeitosa (um palpite indevido ou mesmo uma acintosa intromissão), é um dever do bom católico, desde que, como é sabido, isso ocorra de maneira fraterna, ou seja, sem expor o próximo a situações vexatórias. Ademais, não nos esqueçamos de que são palavras do próprio Cristo: “A quem muito foi dado, muito será cobrado; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido” (Lc 12,48). Desse modo, aquele católico (até mesmo leigo) que detém um conhecimento maior da doutrina da Igreja deve orientar os outros acerca de como proceder, durante as eleições, de forma compatível com a fé para a escolha dos nossos governantes, sob pena de ele próprio pecar por omissão.

Nesse sentido, se até o leigo deve instruir os demais sobre em quem votar, com muito mais razão devem também fazê-lo os ministros ordenados. Conforme já dito, existem muitas questões de suma importância para guiar o voto dos católicos que são inegociáveis e, em virtude disso, há vários documentos da Igreja que estabelecem diretrizes seguras para orientar o nosso voto. A mais conhecida talvez seja a proibição de votar em quem defende pautas contrárias à dignidade da vida humana, que deve ser considerada sagrada desde a concepção até a morte natural, como o aborto e a eutanásia. Entretanto, existem outras regras de extrema relevância a serem observadas e, aqui, convém destacar a questão relativa ao socialismo/comunismo.

Primeiramente, deve-se ressaltar que, embora na teoria marxista haja diferença entre uma coisa e outra, isto é, entre socialismo e comunismo, na prática podemos utilizar ambos os conceitos indistintamente, sem incorrer em erro algum. Até porque, segundo a própria doutrina marxista, o regime socialista é apenas uma fase de transição rumo ao regime comunista, destino final e inexorável da implantação de um reino perfeito na Terra. Mas essa matéria, pela sua amplitude, merece um artigo exclusivo, que pode ficar para uma oportunidade futura. Por isso (frise-se!), tratemos aqui os conceitos de socialismo e de comunismo como sistemas político-econômicos que se equivalem. Daí o porquê de usarmos o sinal de barra (/) entre as duas palavras.

Embora o ideal socialista/comunista seja antiquíssimo, remontando ao período da história anterior à vinda de Cristo, essa ideologia, como verdadeiro movimento político, ganhou força apenas na Idade Contemporânea — cujo marco inicial se deu com a Revolução Francesa (1789) —, mais especificamente em meados do século XIX, com a publicação, em 1848, do famoso Manifesto Comunista, de autoria de Karl Marx e Friedrich Engels, ambos pensadores alemães, que chegaram a morar na Inglaterra e em cuja capital (Londres) ocorreu a publicação do manifesto político em questão.

A partir de então, todos os Papas condenaram o movimento socialista/comunista, muitos deles deixando documentos oficiais que se incorporaram ao Magistério da Igreja a fim de nos advertir acerca da gravidade do erro que é seguir tais ideologias e (pior!) apoiá-las abertamente, ainda que apenas por meio do voto.

Com o propósito de levar ao conhecimento dos fiéis a posição oficial da Igreja Católica a respeito do movimento socialista/comunista, em 2022, a Editora Caritatem lançou o livro A Voz dos Papas contra o Comunismo, que consiste em uma coletânea de documentos papais sobre o tema. Foram compilados documentos de autoria dos seguintes Papas: Pio IX (cujo pontificado foi de 1846 a 1878), Leão XIII (1878–1903), Bento XV (1914–1922), Pio XI (1922–1939) e, finalmente, Pio XII (1939–1958). Segundo afirma a própria editora, apesar de o título do livro dar ênfase à ideologia comunista (na qual, reitere-se, se inclui a ideologia socialista), ao longo dos seus textos os Sumos Pontífices tratam de suas causas e consequências mais imediatas, como o próprio liberalismo, o individualismo e seu papel contra a família, o matrimônio e o governo civil e religioso. Tais documentos podem e devem ser lidos em qualquer tempo, visto que, embora alguns tenham quase duzentos anos, não cessam de ser atuais e indispensáveis para a correta compreensão dos perigos representados pela ideologia nefasta do socialismo/comunismo, tanto para a nossa vida temporal, ou seja, aqui na Terra, quanto, e principalmente, para a salvação das almas.

O grande problema da ideologia socialista/comunista é basear-se na supervalorização do bem-estar econômico e em outras concepções materialistas que, no fundo, negam o valor dos bens eternos (espirituais) que devemos buscar, até por ela negar a própria existência de Deus e Seu reinado sobre os homens. E para estabelecer essa sociedade perfeita aqui neste mundo (um verdadeiro paraíso na Terra), vale tudo, até mesmo recorrer ao uso da força contra os indivíduos que a ela se opõem para eliminá-los do caminho.

Entre os documentos compilados no livro supracitado, está o de autoria do Papa Pio XII que ficou conhecido como “Decreto contra o Comunismo”. Trata-se de um documento publicado em 1º/7/1949, em que são apresentadas respostas doutrinais a perguntas acerca da referida ideologia e cujas conclusões obrigam a que os católicos a elas adiram de forma incondicional. São elas:

Questão n. 1: É permitido aderir ao partido comunista ou favorecê-lo de alguma maneira?

Resposta: Não; o comunismo é de fato materialista e anticristão; embora declarem às vezes em palavras que não atacam a religião, os comunistas demonstram de fato, quer pela doutrina, quer pelas ações, que são hostis a Deus, à verdadeira religião e à Igreja de Cristo.

Questão n. 2: É permitido publicar, divulgar ou ler livros, revistas, jornais ou tratados que sustentam a doutrina e ação dos comunistas ou escrever neles?

Resposta: Não, pois são proibidos pelo próprio Direito (cf. CIC, cânon 1399 [1917]).

Observação: a referência aqui é a um dispositivo (cânon 1399) do Código de Direito Canônico de 1917.

Questão n. 3: Fiéis cristãos que consciente e livremente fizerem o que está nas questões 1 e 2 podem ser admitidos aos sacramentos?

Resposta: Não, segundo os princípios ordinários determinando a recusa dos sacramentos àqueles que não têm a disposição requerida.

Questão n. 4: Fiéis cristãos que professam a doutrina materialista e anticristã do comunismo, e, sobretudo, os que a defendem ou propagam, incorrem pelo próprio fato, como apóstatas da fé católica, na excomunhão reservada de modo especial à Sé Apostólica?

Resposta: Sim.

Como se vê, a questão relativa ao movimento socialista/comunista é absolutamente grave para que o católico simplesmente a negligencie na hora de votar, uma vez que, em casos extremos, pode ensejar até mesmo a excomunhão, que é a pena mais severa prevista no Direito Canônico.

Além disso, é importante destacar que, embora um determinado partido político não leve em seu nome a palavra socialista ou comunista, isso não significa, necessariamente, que ele não traga em sua essência doutrinária, ainda que de forma parcial, as ideias socialistas/comunistas. Basta ver que o partido que governa com mão de ferro a Coreia do Norte, país asiático que possui, seguramente, o regime político mais ditatorial do mundo e que é, assumidamente, comunista, chama-se (que curioso!) Partido dos Trabalhadores da Coreia (PTC). Ademais, os socialistas/comunistas, por mais que defendam a chamada ditadura do proletariado como meio de impor o seu ideário, sempre se apresentaram (e ainda se apresentam) como defensores da democracia. Lembremo-nos de que, quando havia duas Alemanhas (a Ocidental e a Oriental), a que era comunista (Alemanha Oriental) adotava como nome oficial República Democrática Alemã; atualmente, a China, um país notoriamente comunista, adota o nome de República Popular da China, como se o povo governasse a nação, e não uma elite burocrática que nem sequer foi eleita — haja desfaçatez! Vale dizer, a essência socialista/comunista não está necessariamente no nome, mas na doutrina e nas ações do partido ou do movimento político, ainda que, em sua denominação, as palavras usadas evoquem ideias ou valores reconhecidamente virtuosos.

A propósito, é bastante oportuno lembrar as sábias palavras de São Paulo exaradas em uma de suas epístolas: “Se o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz, parece bem normal que os seus ministros se disfarcem de servidores da justiça, cujo fim, no entanto, será segundo as suas obras” (2Cor 11,14-15). Isso serve para nos advertir de que o Mal (assim mesmo, com letra maiúscula) muitas vezes se apresenta a nós com aspecto de Bem, a fim de melhor ludibriar os espíritos bem-intencionados. É preciso, portanto, bastante discernimento para separar, na política, o joio do trigo.

Assim sendo, nas eleições que se avizinham, nós (católicos) devemos estar muito atentos para não cometer o grave erro de votar, ainda que de maneira involuntária, em partidos ou candidatos socialistas/comunistas, observado que todos eles integram aquela vertente do espectro político que se convencionou chamar de esquerda ou, ainda, segundo um eufemismo que eles mesmos adoram usar, progressista.

Nestas eleições, que São Miguel Arcanjo nos defenda no combate e nos livre da praga do socialismo/comunismo!