Conto: A “Nova” Tabuada

Por Thais Yonezawa de Paula Oliveira

Imagine um professor de Matemática que sempre ensinou a tabuada do mesmo jeito: os alunos sentados em fileira, repetindo a tabuada que o professor escrevia na lousa de giz. Depois de muitos anos, os professores daquela escola se reúnem e decidem mudar a forma de ensinar. Não usar mais lousa, nem manter os meninos sentados em fila, mas levá-los para o jardim da escola, colocá-los sentados no chão, entregar um tablet para cada aluno e, através de um recurso de inteligência artificial, ensinar a tabuada. Os professores dessa escola transformaram a forma de ensinar em algo mais leve, de forma que as crianças pudessem aprender usando de algo que faz parte do dia a dia delas, ou seja, através do tablet, que é um instrumento já familiar a elas. O intuito aqui não é fazer uma análise crítica de qual das duas formas é a mais eficiente para ensinar a tabuada, há muitíssimos fatores aqui a serem analisados e é algo que não cabe a nós. O importante é reparar que, em momento algum, a tabuada foi alterada, nem teria como ser, mesmo se isso fosse a vontade do professor, ou até mesmo da maioria dos professores, já que ela é algo perene que está acima da vontade humana.

Agora, imagine que alguns desses professores, ao sair dessa reunião, resolvem divulgar em suas redes sociais: “A velha e retrógrada matemática já era! Chega de lousas de giz e meninos sentados em fileira! Agora é hora de aprender uma nova tabuada, em que o resultado de 3 x 2 não será mais 6!”. Bom, acho que não seria exagero chamar esses professores de loucos e mentirosos, não é mesmo? Pois não foi isso que foi decidido na reunião! Vamos continuar nosso exercício de imaginação e imaginar que esses professores loucos e mentirosos são também professores de faculdade para os jovens que pretendem ser professores no futuro. Esses professores loucos e mentirosos, chegando à sala de aula, dizem: “Atenção! A tabuada mudou! É necessário que vocês aprendam a nova tabuada para passar de ano!”. Esses alunos, então, aprendem a “nova” tabuada, ensinada pelos professores loucos e mentirosos que inventaram algo que nunca existiu nem poderá existir, já que é um atentado contra a própria Lógica.

Bom, esses alunos se formam e se tornam professores e, com muita boa intenção, passam a ensinar a “nova” tabuada em escolas espalhadas por todo o país. Porém, alguns alunos, estudando os manuais de matemática e usando da razão, perceberam que aquela não é a verdade. Não existe a possibilidade de que 3 vezes o número 2 não resulte em 6. Eles, então, se levantam e se põe a questionar o professor bem-intencionado, mostrando, através de palitinhos de fósforo, que não existe a possibilidade de colocar 3 conjuntos de 2 palitos e não resultar em 6 palitos. O professor bem-intencionado, em vez de reconhecer que a verdade é uma só e que não se pode ir contra a própria Lógica, prefere atacar aquele grupo de alunos, dizendo que são antiquados, retrógrados e soberbos. Os alunos não deixam que essas ofensas os atinjam e começam a formar grupos de estudos com os demais colegas para ensinar a Tabuada de Sempre ao maior número possível de pessoas. O professor bem-intencionado, não contente com a situação, começa a usar as aulas para atacar aquele grupo de estudos, dizendo que são separatistas e estão causando divisão na escola.

Bem, o final dessa história ainda não foi escrito. Não há final porque a história ainda está acontecendo e os protagonistas dessa história somos nós mesmos. Cabe a nós a pergunta decisiva: teremos coragem de ir contra esses professores e continuar aprendendo e ensinando a Tabuada de Sempre? Ou será melhor cairmos no conformismo para não nos indispormos com ninguém e fingirmos que está tudo bem dizer que o resultado de 3 x 2 não é 6? A salvação da nossa alma depende dessa resposta.