Deus é Amor 

Por Sergio Vellozo

“Eu não pedi para nascer”, diz o jovem aborrecido. Contudo, estando aqui, é bom saber para que serve a vida. Então é preciso encontrar quem foi o responsável e lhe perguntar. Olho para meus pais. Será que tinham alguma ideia do que viria do ato em que me conceberam? Certamente não. Nunca poderiam me imaginar, exatamente como eu sou. E ainda fica o mistério da origem deles e de onde veio todo esse universo. Tudo que existia antes de mim é como um berço preparado para eu nascer. Preparado por quem? 

Algumas pessoas ficam satisfeitas pensando que foi por acaso, uma sorte ou azar. Impressionante essa crença de que tudo existe por acidente, que a causa da vida é alguma falha. Outras preferimos ficar no mistério da pergunta com suas estonteantes possibilidades. 

“Contemplando estes céus que plasmastes e formastes com dedos de artista; vendo a lua e estrelas brilhantes, perguntamos: ‘Senhor, que é o homem, para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho?’.  

Ó Senhor, nosso Deus, como é grande vosso nome por todo o universo!” (Salmo 8,3.4.9) 

Sim, parece haver alguém, um nome responsável pela existência de tantas coisas. O enigma da vida, seu valor, sua finalidade, seu bom proveito, só vou mesmo descobrir encontrando seu autor. 

“Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. No seu Evangelho, João tinha expressado este acontecimento com as palavras seguintes: ‘Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único para que todo o que n’Ele crer (…) tenha a vida eterna’ (3,16).” (“Deus é Amor”, primeira encíclica de Bento XVI) 

Encontrar o Filho no mundo, no contexto humano, permite saborear o amor de Deus. “Ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que é Deus e está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer” (João 1,18). 

Passados vários anos, ainda me lembro bem de quando tive esse encontro decisivo que mudou o rumo da minha vida. 

“O encontro com as manifestações visíveis do amor de Deus pode suscitar em nós o sentimento da alegria, que nasce da experiência de sermos amados. O reconhecimento do Deus vivo é um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade à d’Ele une intelecto, vontade e sentimento no ato globalizante do amor.” (Bento XVI, Deus é Amor, 17) 

O primeiro encontro, a primeira troca de olhares, é só o começo do relacionamento. E um convite ao amor. “Deus é absolutamente a fonte originária de todo o ser; mas este princípio criador de todas as coisas — o Logos, a razão primordial — é, ao mesmo tempo, um amante com toda a paixão de um verdadeiro amor” (Bento XVI, Deus é Amor, 10). 

Já no profetismo da Antiga Aliança, aparece a revelação de Deus apaixonado por Israel, propondo uma aliança de amor. “Pois, agora, eu é que vou seduzi-la, levando-a para o deserto e falando-lhe ao coração. (…) Eu me casarei contigo para sempre, casamos conforme a justiça e o direito, com amor e carinho. Caso-me contigo com toda a fidelidade e então conhecerás o SENHOR” (Oséias 2,16.21.22). 

Gerações de rabinos e de monges se debruçaram sobre o Cântico dos Cânticos de Salomão para contemplar a união no amor divino retratada no casal apaixonado. 

“A figueira já começa a dar os seus figos, e a vinha em flor exala o seu perfume; levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem. Minha pomba, oculta nas fendas do rochedo, e nos abrigos das rochas escarpadas, mostra-me o teu rosto, faze-me ouvir a tua voz. Tua voz é tão doce e delicado teu rosto!” (Cântico dos Cânticos 2,13.14) 

É assim o olhar de Deus apaixonado pela criatura humana. 

“Feriste meu coração, ó minha irmã e esposa, feriste meu coração com um só dos teus olhares, com uma só das voltas do teu colar! Como são belos os teus amores, ó minha irmã e esposa, melhores, os teus amores, do que o vinho, e o odor dos teus perfumes supera todos os aromas. Teus lábios, minha esposa, são favo que destila o mel; sob a tua língua há mel e leite, e o perfume de tuas vestes é como o perfume do Líbano.” (Cântico dos Cânticos 4,9-11) 

Mas sabemos que muitas vezes, passada a lua de mel, o amor humano acontece de modo deturpado, incompleto ou degenerado, se mostra mais como falsificação do que como imagem do Amor divino. 

Enganos sobre a natureza humana deformam o amor. Deus nos fez e nos quer assim como somos, nem anjo nem animal, mas espírito encarnado. “Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como uma herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem a sua dignidade. E se ele, por outro lado, renega o espírito e consequentemente considera a matéria, o corpo, como realidade exclusiva, perde igualmente a sua grandeza. () Mas nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é o homem, a pessoa, que ama como criatura unitária, de que fazem parte o corpo e a alma. Somente quando ambos se fundem verdadeiramente numa unidade, é que o homem se torna plenamente ele próprio” (Bento XVI, Deus é Amor, 5). 

Quantos casais deixam apagar a chama do amor diante das dificuldades faltando pôr a lenha do sacrifício? No seu desenvolvimento, o amor autêntico se “torna verdadeiramente descoberta do outro, superando assim o caráter egoísta que antes claramente prevalecia. Agora o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio, não busca a imersão no inebriamento da felicidade; procura, ao invés, o bem do amado: torna-se renúncia, está disposto ao sacrifício, antes procura-o” (Bento XVI, Deus é Amor, 6). 

Como disse o poeta: “Amor … é um cuidar que se ganha em se perder.” (Luís de Camões, Sonetos). Ele floresce e amadurece conjugando o ímpeto ascendente de conquista, em que se ganha, com a generosidade descendente de renúncia, em que se perde. “Na realidade, eros e ágape — amor ascendente e amor descendente — nunca se deixam separar completamente um do outro. Quanto mais os dois encontrarem a justa unidade, embora em distintas dimensões, na única realidade do amor, tanto mais se realiza a verdadeira natureza do amor em geral. Embora o eros seja inicialmente sobretudo ambicioso, ascendente — fascinação pela grande promessa de felicidade — depois, à medida que se aproxima do outro, far-se-á cada vez menos perguntas sobre si próprio, procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais dele, doar-se-á e desejará « existir para » o outro. Assim se insere nele o momento da ágape; caso contrário, o eros decai e perde mesmo a sua própria natureza” (Bento XVI, Deus é Amor, 7). 

Deus apaixonado veio para nos conquistar e tomar posse. É como um Rei que ocupa um novo território para aumentar seu reino. Apenas que o terreno desse território é o coração humano, é a nossa vida que Ele quer ocupar. “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (João 14,23). Ele veio para habitar em nós em comunhão de vontade. “A história do amor entre Deus e o homem consiste precisamente no fato de que esta comunhão de vontade cresce em comunhão de pensamento e de sentimento e, assim, o nosso querer e a vontade de Deus coincidem cada vez mais: a vontade de Deus deixa de ser para mim uma vontade estranha que me impõem de fora os mandamentos, mas é a minha própria vontade, baseada na experiência de que realmente Deus é mais íntimo a mim mesmo de quanto o seja eu próprio. Cresce então o abandono em Deus, e Deus torna-Se a nossa alegria (cf. Sal 73/72, 23-28)” (Bento XVI, Deus é Amor, 17). 

Para habitar nosso íntimo em aliança de amor, Deus venceu a distância da natureza com a encarnação, do pecado com a expiação e da morte com a ressurreição. Três grandes feitos do Onipotente que se integram e em perfeita síntese revelam tudo que pode o Amor. Oh! grandeza de Deus! São gestos infinitos, inesgotáveis, do tamanho de Deus. Acontecem agora! Estão na Igreja, na liturgia, nos mistérios e nos conquistam. 

“Nesse momento — quando consenti nesse sacrifício de toda a minha vontade e coração — a presença de Deus me transpassou de um lado ao outro. A minha alma mergulhou em Deus e foi inundada de tanta felicidade que nem em parte posso descrevê-la. Sentia que Sua majestade me envolvia. Uni-me com Deus de uma maneira estranha. Via o grande agrado que Deus tem por mim, e o meu espírito, por sua vez, mergulhou Nele. (…) Ocorreu um grande segredo nessa adoração. Um segredo entre mim e o Senhor. (…) Nesse momento, senti-me consagrada. O invólucro do corpo é o mesmo, mas a minha alma estava alterada, pois agora nela habitava Deus com toda Sua predileção.” (Santa Faustina, Diário, 137) 

A iniciativa é toda de Deus, já antes de tudo ser criado Ele nos amou. “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como oferenda de expiação pelos nossos pecados. (..) Nós amamos, porque ele nos amou primeiro” (1 João 4,10.19). 

Jesus fala do amor como um fogo que se espalha. “Eu vim trazer fogo à terra, e como anseio que ele arda” (Lc 12,49). Fogo de amor ciumento como disse o profeta: “Pois o SENHOR vosso Deus é fogo abrasador, é um Deus ciumento” (Deuteronômio 4,24). 

Na vigília da Páscoa, com um fogo novo se acende o Círio Pascal. Ele vai entrando no templo escuro e cada um acende sua vela na chama que vem do círio. Gradualmente fica tudo iluminado pelas velas e, ao mesmo tempo, se anuncia em tom cada vez mais alto: “Eis a luz de Cristo”. É imagem deste amor que, como diz o hino, “ao repartir o seu esplendor, não diminui a sua luz” (Exultet). 

“Sim, o amor é «êxtase»; êxtase, não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus: « Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc 17,33) — disse Jesus; afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16,25; Mc 8,35; Lc 9,24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do grão de trigo que cai na terra e morre e assim dá muito fruto. Partindo do centro do seu sacrifício pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, Ele, com tais palavras, descreve também a essência do amor e da existência humana em geral.” (Bento XVI, Deus é Amor, 6) 

Impressiona que Ele, sendo quem é, depois de vir a nós, vencendo a distância descomunal entre Criador e criatura, chegue em nossa porta, pare, nos chame e aguarde. 

“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição, eu com ele e ele comigo.” (Apocalipse 3,20) 

Abrir a porta é, como ouvimos no testemunho de Santa Faustina, “rendição a Ele de nossa vontade e coração”. O divino visitante não nos invade. O amor nunca pode ser forçado, pois Deus é pura liberdade e o amor real em nós só pode acontecer se quisermos. 

“Eu dormia, mas meu coração velava. Eis a voz do meu amado. Ele bate. Abre-me, minha irmã, minha amada, minha pomba, minha perfeita; minha cabeça está coberta de orvalho, e os cachos de meus cabelos cheios das gotas da noite. Levantei-me para abrir ao meu amado; a mirra escorria de minhas mãos, de meus dedos a mirra líquida sobre os trincos do ferrolho. Abri ao meu bem-amado, mas ele já se tinha ido, já tinha desaparecido; ouvindo-o falar, eu ficava fora de mim. Procurei-o e não o encontrei; chamei-o, mas ele não respondeu.” (Cântico dos Cânticos 5,2.5.6) 

Nos cantares de Salomão a indecisão e demora em abrir causam um desencontro. Um coração inconstante e dividido necessita ser purificado. 

“Faz parte da evolução do amor para níveis mais altos, para as suas íntimas purificações, que ele procure agora o carácter definitivo, e isto num duplo sentido: no sentido da exclusividade — « apenas esta única pessoa » — e no sentido de ser « para sempre ». O amor compreende a totalidade da existência em toda a sua dimensão, inclusive a temporal. Nem poderia ser de outro modo, porque a sua promessa visa o definitivo: o amor visa a eternidade.” (Bento XVI, Deus é Amor, 6)  

Sendo Deus infinito, recebê-Lo em nós é algo eterno, é sem fim. Nosso “sim” a Ele precisa ser contínuo. A cada instante, a nossa liberdade escolhe amar ou não amar, ser ou não ser do Amor. A escolha de sempre amar implica, em todas as circunstâncias, não reservar espaço para outros compromissos. “Não deverás adorar nenhum outro Deus, pois o SENHOR se chama ciumento: ele é um Deus ciumento” (Êxodo 34,14). 

A união de amor é “um processo que permanece continuamente em caminho: o amor nunca está « concluído » e completado; transforma-se ao longo da vida, amadurece e, por isso mesmo, permanece fiel a si próprio” (Bento XVI, Deus é Amor, 17). 

A liturgia é o lugar providenciado para o encontro dos fiéis com Deus em gratidão de amor. Na santa missa o Prefácio da Oração Eucarística nos introduz na presença de Deus. Inicia com o chamado “Corações ao alto” e a resposta “O nosso coração está em Deus”. Segue uma oração de agradecimento ao Pai, que nos deu o Filho, e conclui com o sacerdote unindo a assembleia ao louvor dos anjos e santos diante de Deus no canto celestial. 

“Santo, Santo, Santo, 

Senhor, Deus do universo! 

O céu e a terra proclamam a vossa glória.” 

Não vemos o sol sem antes ver seu brilho.  

“Assim como o esplendor do sol indica o próprio sol, assim também os anjos revelam Deus com seu louvor. Assim como é impossível o sol estar sem sua luz, tampouco pode a Divindade estar sem o louvor dos anjos.” (Sta. Hildegarda de Bingen, Liber Divinorum Operum, 1 ,1 ,6) 

Junto aos anjos extasiados em adoração diante da presença majestosa, repetimos com eles sem cessar: Santo, Santo, Santo… 

De novo acontece o encontro com Deus em seu amor. Como disse Jeremias: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir!” (Jer 20,7a).