Por Thais Oliveira
O que havia em comum entre Hitler, Stalin, Mao e Che Guevara? Todos tinham um plano de um mundo melhor. O problema é que eles achavam que, para que o mundo fosse, de fato, melhor, todas as pessoas deveriam concordar com o plano deles. E, caso alguém discordasse, era imediatamente considerado um inimigo e deveria morrer. O que parecia ser uma bela intenção acabou sendo responsável pelas maiores atrocidades da história da humanidade. Esse é o destino natural de todas as ideologias que pretendem implantar um Paraíso na Terra.
Absolutamente diferente é o ensinamento de Nosso Senhor: “Negue-se a si mesmo, tome sua cruz e me siga”. O caminho da Felicidade cristã não é outro senão o de declarar guerra contra si mesmo. Marcado pelo pecado original, o cristão sabe que o homem não “nasce bom”. Não existe paz sem guerra contra si próprio. O homem já nasce marcado pela concupiscência e, se deseja a Felicidade Plena – que não é possível na Terra –, deve ter a si mesmo como inimigo, lutando diariamente para que, com a graça de Deus, seja alguém virtuoso e cumpra o chamado que recebeu à Santidade. Acontece que, quando vários homens estão lutando contra si próprios para serem cada dia melhores, naturalmente ocorre algo extraordinário já declarado por Fulton Sheen: “Quando um número suficiente de homens tiver encontrado este caminho da felicidade, encontrar-se-ão também uns aos outros na fraternidade. Haverá então a paz social”.
Essa paz social é a mesma Civilização do Amor de que tanto falava São Paulo VI. A Civilização do Amor nada mais é do que a comunidade formada por homens virtuosos que, querendo alcançar a Felicidade do Céu, acabam, como consequência, fazendo um mundo melhor aqui na Terra também. É o que vemos retratado nos Atos dos Apóstolos, capítulo dois, em que: “Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum; vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro com todos, conforme a necessidade de cada um. Perseverantes e bem unidos, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E, cada dia mais, o Senhor acrescentava a seu número mais pessoas que eram salvas”.
Essa comunidade dos primórdios do cristianismo em nada se assemelha ao que hoje prega o Socialismo. A esperança deles estava unicamente em Deus. Em momento nenhum pensavam em um Paraíso aqui na Terra semelhante ao que cantava Jonh Lennon: “Imagine que não exista Céu… nenhum inferno sob nós… imagine que não há países, e nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz… sem necessidade de ganância ou fome. Uma irmandade dos homens”. Muito pelo contrário, esses mesmos cristãos foram os que, para não negar a Deus, e porque o desejo deles nunca foi outro senão o Paraíso celeste, preparado por Deus àqueles que Lhe são fiéis, aceitaram ser martirizados, comidos pelos leões, crucificados, queimados.
A esperança no Paraíso e a luta pela Santidade continuam sendo o ensino da Igreja que, como método político, não ensina outro que não seja o amor a Deus e ao próximo. De acordo com o psiquiatra Italo Marsili: “Apenas a virtude é capaz de livrar o homem da barbárie. Dito de outro modo, sem a Igreja Católica como mãe e mestra, o mundo não se sustenta”. O conjunto de ensinamentos acerca de como um cristão deve viver em sociedade chama-se Doutrina Social da Igreja. Longe de ser uma ideologia, a DSI é Teologia Moral.
Destaca-se que existe uma ideologia moderna que adentrou o âmbito católico e que tenta, a todo custo, tratar das questões sociais sem levar em conta de que lama o homem é feito e que, furtando-se à preocupação da ascensão espiritual do homem, não corresponde à Doutrina Social da Igreja. Tal é o problema das ditas “Campanhas da Fraternidade”. Fulton Sheen escreveu que, quando o homem deixa de amar a Deus, não amará o próximo por muito tempo. É por isso que não existe verdadeira fraternidade quando se esvazia o transcendente.
Embora a Igreja desde sempre tenha se preocupado com as questões sociais e inúmeros santos tenham combatido a miséria espiritual através da minoração das misérias sociais dos necessitados, a Encíclica Rerum novarum, do Papa Leão XIII, é considerada o marco inicial de uma série de Encíclicas que tratou especificamente das questões sociais a partir da Revolução Industrial.
Os principais documentos que compõem a chamada Doutrina Social da Igreja são:
- 1891: Leão XIII – Encíclica Rerum novarum;
- 1931: Pio XI – Encíclica Quadragesimo anno;
- 1961: João XXIII – Encíclica Mater et magistra;
- 1963: João XXIII – Encíclica Pacem in Terris;
- 1965: Gaudium et spes (CVII);
- 1965: Dignatatis humanae (CVII);
- 1967: Paulo VI – Encíclica Populorum progressio;
- 1971: Paulo VI – Carta Apostólica Octogesima adveniens;
- 1981: João Paulo II – Encíclica Laborem exercens;
- 1987: João Paulo II – Encíclica Sollicitudo Rei Socialis;
- 1991: João Paulo II – Encíclica Centesimus annus;
- 2009: Bento XVI – Encíclica Caritas in veritate;
- 2015: Francisco – Encíclica Laudato si.
A Doutrina Social tem dois objetivos:
- Enfatizar as obrigações da ação social e justa, tais como aparecem no Evangelho;
- Protestar em nome da justiça, sempre que estruturas sociais, econômicas ou políticas contradizem a mensagem do Evangelho.
A partir desses objetivos, quatro são os princípios que a fundamentam:
- Dignidade da pessoa: criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano é a obra-prima da obra da criação. Tamanha sua dignidade, mesmo ferida pelo pecado, que foi assumida e redimida por Jesus Cristo mediante a Sua encarnação, morte e ressurreição.
- Bem comum: definido no Concílio Vaticano II, bem comum é o “conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada um dos seus membros, atingir mais plena e facilmente a própria perfeição”.
- Subsidiariedade: formulada pela primeira vez na Encíclica Quadragesimo anno, do Papa Pio XI, “consiste em que cada tarefa social é confiada em primeiro lugar a grupos pequenos que a possam resolver. O nível imediatamente superior deve assumir a competência só no caso em que a unidade inferior não esteja em condições de resolver o problema”. Isso fortalece a iniciativa individual, dos grupos e das associações e impede o excesso de centralização.
- Solidariedade: de acordo com o Papa Bento XVI, “a solidariedade consiste primariamente em que todos se sintam responsáveis por todos”. É tanto um princípio social quanto uma virtude moral. A ajuda material é adubo para uma abertura à ajuda espiritual, porque o sentimento de gratidão diante da ajuda recebida torna a pessoa mais dócil para ouvir a Palavra de Deus.
Só alguém que experimentou o amor humano consegue entender o Amor de Deus. Por isso, nós somos chamados a praticar aos outros as obras de misericórdia espirituais e materiais, quais sejam:
Obras de misericórdia espirituais:
- Ensinar os ignorantes;
- Dar bom conselho;
- Consolar os aflitos;
- Corrigir os que erram;
- Perdoar as injúrias;
- Rogar a Deus por vivos e defuntos;
- Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo.
Obras de misericórdia materiais:
- Dar de comer a quem tem fome;
- Dar de beber a quem tem sede;
- Dar pousada aos peregrinos;
- Vestir os nus;
- Visitar os presos;
- Assistir os enfermos;
- Enterrar os mortos.
Temos, assim, muito claro que não há outra forma de minorar os problemas sociais senão com a vivência dos ensinamentos daquela que é a Mestra em Humanidade. E, se o mundo não vai bem, se as pessoas sofrem tanto, se há fome, injustiça e ganância é porque faltam cristãos comprometidos com a nobre vocação à qual foram chamados, como brilhantemente escreveu São Josemaria Escrivá: “Estas crises mundiais são crises de Santos”.
Referências:
Caminho – São Josemaria Escrivá – 2021, Editora Quadrante;
Catecismo da Igreja Católica – 1997, Edições Loyola;
Compêndio da Doutrina Social da Igreja – Pontifício Conselho Justiça e Paz – 2011, Editora Paulinas;
Docat Brasil: Como agir? – 2016, Editora Paulus.