Por Thais Yonezawa de Paula Oliveira
O quarto dos Cinco Mandamentos da Igreja é: “Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja”. Mas o que manda a Santa Mãe Igreja?
O cânon 1251 do Código de Direito Canônico dá a resposta: “Observe-se a abstinência de carne ou de outro alimento, segundo as prescrições da Conferência dos Bispos, em todas as sextas-feiras do ano, a não ser que coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades; observem-se a abstinência e o jejum na quarta-feira de Cinzas e na sexta-feira da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo” (grifo nosso).
Assim sendo, estamos obrigados à abstinência de carne em todas as sextas-feiras do ano, com exceção daquelas que coincidirem com alguma Solenidade da Igreja. Repare que o cânon abre a exceção apenas para as Solenidades, e não para todas as festas litúrgicas.
De acordo com o calendário litúrgico, os dias das Oitavas do Natal são dias de festa, enquanto os dias das Oitavas de Páscoa são dias de Solenidade.
Com base nisso, já conseguimos responder à pergunta proposta no título do artigo:
Na sexta-feira das Oitavas do Natal, não estamos dispensados da abstinência de carne. Ao contrário, na sexta-feira das Oitavas da Páscoa, por serem dias de Solenidade, há dispensa da abstinência de carne.
Estão obrigados a tal abstinência aqueles que já completaram 14 anos de idade. Já o jejum da Quarta-feira de Cinzas e da Sexta-feira da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo obriga a partir dos 18 anos completos e até os 59 anos completos.
Cabe destacar que o parágrafo 2041 do Catecismo da Igreja Católica afirma que os Cinco Mandamentos da Igreja possuem um caráter obrigatório, o que significa que incorre em pecado mortal aquele que, conscientemente e por culpa própria, deixa de cumprir a abstinência de carne nas sextas-feiras do ano que não coincidirem com dias de Solenidade.
O cânon 1253 legisla que: “A Conferência dos Bispos pode determinar mais exatamente a observância do jejum e da abstinência, como também pode substituí-los, total ou parcialmente, por outras formas de penitência, principalmente por obras de caridade e exercícios de piedade”.
Tendo em vista o supramencionado cânon, a Conferência Episcopal brasileira determinou que a abstinência de carne nas sextas-feiras do ano (inclusive as da Quaresma, exceto a Sexta-feira Santa) pode ser comutada em “outras formas de penitência, principalmente em obras de caridade e exercícios de piedade”. Tal possibilidade não significa que a abstinência de carne às sextas foi suprimida. Significa, simplesmente, que, quando não for possível cumpri-la, é possível comutar por um outro ato de piedade.
Assim como todos os demais mandamentos, a abstinência de carne não deve ser olhada de forma meramente legalista. Sexta-feira é, tradicionalmente, um dia penitencial, uma vez que recordamos a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, de nada adianta cumprir todas as regras sem se meditar minimamente sobre a grande prova de Amor que Cristo nos fez. E, para auxiliar nossos leitores, deixamos aqui, para concluir, uma meditação de Santo Afonso Maria de Ligório sobre a Paixão de Cristo:
“Considera que o nosso amável Redentor é chegado ao fim da sua vida. Amortecem-se lhes os olhos, o seu belo rosto empalidece, o coração palpita debilmente, e todo o sagrado corpo é lentamente invadido pela morte. Vinde, anjos do céu, vinde assistir à morte do vosso Deus. E vós, ó Mãe dolorosa, Maria, chegai-vos mais próxima à cruz, levantai os olhos para vosso Filho, e contemplai-o atentamente, porque está prestes a expirar.
‘Pater, in manus tuas comendo spiritum meum’ – ‘Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito’. É esta a última palavra que Jesus profere com confiança filial e perfeita resignação com a vontade divina. Foi como se dissesse: Meu Pai, não tenho vontade própria; não quero nem viver nem morrer. Se é vossa vontade que eu continue a padecer sobre a cruz, eis-me aqui, estou pronto para obedecer; em vossas mãos entrego o meu espírito; fazei de mim segundo a vossa vontade. – Tomara que nós digamos o mesmo, quando temos alguma cruz, deixando-nos guiar pelo Senhor, conforme o seu agrado. Tomara que o repitamos especialmente no momento da morte! Mas para bem o fazermos então, devemos praticá-lo muitas vezes em nossa vida.
Entretanto, Jesus chama a morte, que por deferência não ousava aproximar-se do autor da vida, e lhe dá licença para lhe tirar a vida. E eis que finalmente, enquanto treme a terra, se abrem os túmulos e se rasga o véu do templo, eis que pela veemência da dor faltam as forças ao Senhor moribundo, baixa o calor natural, falha a respiração. Jesus abandona o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira: ‘Et inclinato capite, tradidit spiritum’. – Parti, ó bela alma do meu Salvador, parti e ide nos abrir o paraíso, fechado até agora, ide apresentar-vos à Majestade divina, e alcançai-vos o perdão e a salvação.
As pessoas presentes, voltadas para Jesus Cristo, por causa da força com que proferiu as suas últimas palavras, contemplam-no com atenção silenciosa, vêem-no expirar, e notando que não se move mais, dizem: Morreu, morreu. Maria ouve que todos o dizem, e ela também exclama: Ah, Filho, já morreste; estais morto.
Morreu! Ó Deus! Quem é que morreu? O Autor da vida, o Unigênito de Deus, o Senhor do mundo. Ó morte, que fizeste pasmar o céu e a natureza! Um Deus morrer pelas suas criaturas! – Vem, minha alma, levanta os olhos e contempla esse homem crucificado. Contempla o Cordeiro divino já imolado sobre o altar da dor; lembra-te de que ele é o Filho dileto do Pai Eterno, e que morreu pelo amor que te tem dedicado. Vê esses braços abertos para te acolherem; a cabeça inclinada para te dar o ósculo da paz; o lado aberto para te receber. Que dizes? Não merece ser amado um Deus tão bom e tão amoroso? Ouve o que do alto de sua cruz te diz o Senhor: Meu Filho, vê se há alguém no mundo que te tenha amado mais do que eu, teu Deus!
Ah, meu Jesus, já que para minha salvação não poupastes a vossa própria pessoa, lançai sobre mim esse olhar afetuoso com que me olhastes um dia, quando estáveis em agonia sobre a cruz, olhai-me, iluminai-me e perdoai-me. Perdoai-me em particular a ingratidão que tive para convosco no passado, pensando tão pouco na vossa paixão e no amor que nela me haveis mostrado. Dou-Vos graças pela luz que me concedeis de compreender através de vossas chagas e de vossos membros dilacerados, como por entre umas grades, o afeto tão grande e tão terno que ainda guardais para comigo.
Ai de mim, se depois de receber estas luzes deixasse de Vos amar, ou amasse outra coisa que não a Vós. Morra eu, assim Vos direi com São Francisco de Assis, morra eu por amor de vosso amor, ó meu Jesus, que Vos dignastes morrer por amor de meu amor. Ó Coração aberto de meu Redentor, ó morada feliz das almas amantes, não Vos dedigneis receber agora minha mísera alma.
Ó Maria, ó Mãe de dores, recomenda-me a vosso Filho, a quem vedes morto sobre a cruz. Vede as suas carnes dilaceradas, vede o seu Sangue divino derramado por mim, e conclui disto quanto lhe agrade que lhe recomendeis a minha salvação. A minha salvação consiste em que o ame, e este amor vós me deveis impetrar, mas um amor grande, um amor eterno.”