Filhos: um caminho de virtudes

Por Aline Jacomo

Primeiramente, saiba, caro leitor, que este texto será escrito por uma mãe, enquanto amamenta e nina seu bebê, que tentará traduzir, nestas linhas, um compilado de pensamentos oriundos de noites mal dormidas e várias conversas com amigas.

Se você é minimamente católico, já ouviu a expressão: “O casamento é nosso caminho para o Céu”. De fato, a vocação dos casados se faz em santificar-se e ajudar na santificação do cônjuge. Para que isso ocorra,  Deus permite vários meios, ou percalços,  que vão provando a fé e o amor do casal. Como um desses, e o mais sublime, estão os filhos.

Concedidos pela vontade divina em número e complexidade, essas páginas em branco solicitam incessantemente a doação de seus pais. Mas tudo isso é fácil de refletir, portanto trarei vários pontos bem exemplificados de como os filhos podem ser nossa escola de virtudes.

  • Paciência: Essa parece óbvia, afinal, os filhos nos testam, têm opiniões próprias e divergentes das nossas, mas há também a paciência em suportar as noites com nariz congestionado, os lentos 5 minutos do filho em posição de higiene natural para que ele possa evacuar com tranquilidade, os 15 minutos de colo que eles nos exigem para se autorregularem, as inúmeras mamadas, o desassossego na troca de fraldas, a irritabilidade próxima ao sono etc. Basicamente, o dia a dia mostrando-se em provas de paciência.

  • Diligência: Quando se tem filho, aprende-se o valor do tempo. De qual tempo? Das 8 horas de sono? Das 2 horas de almoço? Do happy hour após as 18h? Também são essas, mas, principalmente, o valor dos 5 minutos para se ir ao banheiro, dos 2 minutos para trocar de roupa, dos 7 minutos para estender as roupas no varal, dos 10 minutos para almoçar, dos 17 minutos para se lavar a louça. Esses tempos, curtos, essenciais, só têm valor quando somos privados deles, e só percebemos o quanto são rápidos quando o fazemos sem distrações, sem a playlist perfeita, sem aqueles 10 minutos para escolher o podcast, sem os 12 reels vistos, em suma, sem procrastinação.

  • Caridade: Em um ato de doação, como Jesus o fez, ser a fonte de alimento de alguém “Tomai e comei”. Mas não só a amamentação, pois sabemos que a doação perpassa a livre demanda. Doamos:

    • Tempo: Sobre o qual não temos mais domínio; um compilado de dias e noites, aqueles com e sem tarefas.

    • Planos: Tudo pode mudar com crianças pequenas: o horário da academia, a planilha de dieta, a reunião de trabalho, a resposta no WhatsApp, a soneca no meio da tarde, o tempo de qualidade com o parceiro(a), mais um episódio da série, o plano de vida espiritual. Tudo ganhando uma nota mais verdadeira de: “Seja o que Deus quiser!”.

    • Corpo: Desde a gestação, o corpo da mãe prioriza o bem-estar e o abastecimento energético do feto. Depois de nascido, vão as horas de sono, os braços dormentes da mesma posição e as pernas cansadas do “vai e vem” do ninar. Aqui confiamos ainda mais que Deus faz novas todas as coisas. Como em Mateus 16,25, quem quiser guardar a sua “vida” irá perdê-la, mas quem perder a “vida” por causa de Mim achá-la-á.

  • Frugalidade: Nada como a maternidade para te ensinar o equilíbrio contra o exagero e o desperdício. As roupinhas que não servem mais serão úteis para outra família, o leite que vaza do seio que não está amamentando pode alimentar vários bebês prematuros se doado, a roupa chiquíssima que você usava talvez não seja mais tão confortável pra amamentar ou segurar um bebê, as horas no shopping de que você precisava para se desestressar são resolvidas em um simples passeio no parquinho.

  • Mansidão: É muito fácil ser amoroso com quem te retribui, quando se está com a barriga cheia, o sono em dia, 3 litros de água, bexiga vazia, mente estável. Tirem-se essas variáveis e eis o seu limite de irritabilidade exposto, precisando de melhora (e quanta melhora!).

  • Constância: Para ganhar a autonomia de sono do filho, a alimentação variada e saudável, o desfralde, o fim das birras, o seguimento das regras da casa. Tudo depende da sua força de vontade pra acontecer.

  • Humildade: Ainda que se tenha estudado tudo, não sabemos nada, erramos muito e saber que isso vai acontecer é estritamente necessário para não surtar. “Errei de novo! — E esperavas algo diferente?”.

  • Fé: Não é possível vigiar uma morte súbita do recém-nascido, uma broncoaspiração, um joelho ralado, um braço quebrado, um coração partido. Isso não quer dizer que não há como prevenir; esse é nosso papel, mas ele finda, há limites no “poder” do ser humano, e esse limite só é transponível por Deus. Ele vigia, Ele é onisciente e onipresente. Então, basta-nos um: “Entrego isso em tuas mãos, Senhor. O que eu podia fazer está feito, agora é Contigo”.

  • Esperança: Dias ruins passam, e os bons também; tudo passa, tudo melhora, e ainda que não melhore tanto, tudo pode ser usado para nossa santificação, portanto não será desperdiçado nosso sofrimento.

Agora, você pode estar pensando: “Deus me livre de ter filhos!”. Não me entenda mal, caro leitor. Fato é que precisamos ter os olhos na eternidade.

Pensando nos santos que já contemplam a glória de Deus, todos passaram por sofrimentos atrozes que purificaram suas almas, dando-lhes o Céu. Não há outro caminho, no entanto, pois nossa missão como cristãos em uma sociedade levemente estável é transformar esses pequenos sofrimentos em um potencial equivalente àquelas grandes tribulações. Como se a espada do nosso martírio não viesse inteira, completa, mas precisasse que nós juntássemos todos os retalhos de aço que encontrássemos na vida e com eles, no nosso Julgamento, pudéssemos, pela misericórdia divina, alcançar o peso de uma espada de martírio.

Por fim, vamos à luta, caro leitor! Use sua rotina a seu favor. Cada um em busca de seus retalhos, de sua vocação… em busca do Céu.