Por Paulo Vilar
O artigo intitulado Os macacos de Darwin e o Cristianismo, publicado neste site em 13/02/2026, acerca do equívoco que é considerar a teoria evolucionista um fato cientificamente irrefutável, talvez possa suscitar em alguns a seguinte objeção: “Ah! Mas a própria Igreja Católica, na encíclica Humani Generis, promulgada pelo Papa Pio XII, em 1950, convalida a teoria evolucionista”. Entretanto, não é o que a referida encíclica diz. Se não, vejamos o que consta de alguns dos seus parágrafos:
“Se olharmos para fora do redil de Cristo, facilmente descobriremos as principais direções que seguem não poucos dos homens de estudo. Uns admitem sem discrição nem prudência o sistema evolucionista, que até no próprio campo das ciências naturais não foi ainda indiscutivelmente provado, pretendendo que se deve estendê-lo à origem de todas as coisas, e com ousadia sustentam a hipótese monista e panteísta de um mundo submetido a perpétua evolução. Dessa hipótese se valem os comunistas para defender e propagar seu materialismo dialético e arrancar das almas toda noção de Deus” (parágrafo 5º negrito meu).
“Por isso o magistério da Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente (pois a fé nos obriga a reter que as almas são diretamente criadas por Deus), segundo o estágio atual das ciências humanas e da sagrada teologia, de modo que as razões de uma e outra opinião, isto é, dos que defendem ou impugnam tal doutrina, sejam ponderadas e julgadas com a devida gravidade, moderação e comedimento, contanto que todos estejam dispostos a obedecer ao ditame da Igreja, a quem Cristo conferiu o encargo de interpretar autenticamente as Sagradas Escrituras e de defender os dogmas da fé. Porém, certas pessoas ultrapassam com temerária audácia essa liberdade de discussão, agindo como se a própria origem do corpo humano a partir de matéria viva preexistente fosse já certa e absolutamente demonstrada pelos indícios até agora achados e pelos raciocínios neles baseados, e como se nada houvesse nas fontes da revelação que exigisse a máxima moderação e cautela nessa matéria” (parágrafo 36 negrito meu).
Em ambos os parágrafos, as partes destacadas (em negrito) deixam claro que o Papa Pio XII afirma que a teoria evolucionista não está realmente provada pela ciência. O que a encíclica contém é uma ligeira concessão à possibilidade de se discutir tal teoria a fim de perquirir se a origem do corpo humano deriva de matéria viva preexistente, sem deixar de ressaltar que a fé nos obriga a aceitar que as almas são criadas diretamente por Deus. Mas, assim mesmo, a encíclica afirma textualmente que, quanto à teoria evolucionista, é preciso ter a máxima moderação e cautela em sua análise.
A encíclica Humani Generis não foi escrita para tratar especificamente da teoria evolucionista, a qual, em verdade, é nela mencionada apenas de passagem. O seu objetivo primordial foi combater o relativismo, alertando para desvios teológicos modernos que tentavam reinterpretar os dogmas sem o devido cuidado ou fidelidade ao Magistério da Igreja, ameaçando subverter os fundamentos da doutrina católica.
Dessa forma, não é correto afirmar que a Igreja Católica aceita a teoria da evolução como uma realidade científica ou que um católico não pode se insurgir contra ela. Pelo contrário, como visto, esse documento pontifício deixa livre a discussão sobre a veracidade de tal teoria, desde que sejamos cautelosos em sua apreciação.
Além disso, muitas pessoas acreditam, ingenuamente, que a moderna teoria evolucionista surgiu apenas da observação do que ocorre na natureza, sem estar minimamente contaminada por nenhuma ideologia subjacente. Entretanto, vejam o que o próprio Charles Darwin diz na introdução do seu célebre livro A Origem das Espécies (cito abaixo trecho extraído da página 16 de um exemplar publicado, em 2009, pela Editora Escala):
“(…) No capítulo seguinte, se examinará a luta pela existência entre todos os seres orgânicos, em que se verificará inevitavelmente a elevada progressão geométrica de seu crescimento. É esta a doutrina de Malthus aplicada ao conjunto dos reinos animal e vegetal. Como de cada espécie nascem ainda mais indivíduos dos que podem sobreviver, e como, em consequência disso, há uma luta pela vida, que se repete frequentemente, segue-se que todo ser, se varia, por débil que esta possa ser, de algum modo proveitoso para ele sob as complexas e às vezes variáveis condições da vida terá maior probabilidade de sobreviver e de assim ser naturalmente selecionado. Segundo o poderoso princípio da hereditariedade, toda variedade selecionada tenderá a propagar sua nova e modificada forma. (…)”
Percebam que, conforme o próprio Charles Darwin confessa no trecho acima, foi depois de ler o livro Um Ensaio sobre o Princípio da População, do economista e clérigo anglicano Thomas Robert Malthus, publicado em 1798, que ele (Darwin) formulou a explicação de como os seres vivos teriam evoluído (o livro A Origem das Espécies foi publicado várias décadas depois, em 1859). Ou seja, a “bíblia” do evolucionismo moderno baseou suas teses em outro ramo do conhecimento que não apenas as ciências biológicas, o que normalmente não nos é divulgado (por que será?!).
Dito isso, passemos, ainda, a uma questão que está no cerne da teoria evolucionista e a respeito da qual talvez poucos cristãos simpáticos a ela tenham refletido: a morte. Sim, pois não podemos esquecer, no final das contas, que a morte é um mecanismo inerente aos postulados da teoria da evolução. Com efeito, o surgimento de espécies mais “evoluídas” se dá com a extinção (ou seja, a morte) de muitas outras, menos “evoluídas”, ou, como preferem alguns, menos adaptadas ao meio ambiente. Vale dizer: esse longo processo de depuração dos seres vivos, incluindo os humanos, não ocorre sem que muitos deles talvez a maioria fiquem pelo caminho, isto é, morram.
Se Deus criou o mundo inserindo nele o mecanismo evolucionista, e sendo a morte uma ferramenta de aperfeiçoamento das espécies e, portanto, indissociável do mecanismo em questão, teríamos de aceitar a inescapável conclusão de que o autor da morte é o próprio Criador. Absurdo? Sim, absurdo! Afinal, dizem as Sagradas Escrituras não só que a morte entrou no mundo como consequência do pecado original (Rm 5,12), isto é, após o mundo e o próprio homem terem sido criados, mas também que a morte é o último inimigo a ser vencido por Cristo (1Cor 15,26).
Reflitamos, pois, diversas vezes antes de aceitar, passivamente, a ideia de que a teoria evolucionista está suficientemente comprovada e (pior!) que é plenamente compatível com o Cristianismo.