Não existe cristão comunista

Por Erica Yonezawa de Paula

A afirmação de que “não existe cristão comunista” pode parecer polêmica para alguns, especialmente em um contexto contemporâneo em que a palavra “comunismo” muitas vezes se associa a ideais de justiça social e solidariedade. Contudo, quando analisamos as propostas do comunismo conforme expostas por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto do Partido Comunista e as confrontamos com a doutrina da Igreja Católica, a incompatibilidade torna-se clara.

O Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848, apresenta um programa político cujo cerne é a luta de classes. Marx e Engels propõem a revolução do proletariado contra a burguesia, levando a cabo o fim desta como classe. Entre os princípios destacados no manifesto, podemos citar a abolição da propriedade privada, já que o comunismo propõe a expropriação dos bens privados para a coletivização dos meios de produção; a supressão da religião, porque é vista como “ópio do povo”, uma ferramenta para manter as massas oprimidas; e a destruição da estrutura familiar tradicional.

Esses pilares do pensamento comunista revelam uma visão de mundo materialista e ateia, em que a sociedade ideal se baseia exclusivamente nas relações econômicas, subordinando o espiritual ao material.

A Igreja Católica, desde sua origem, defende princípios que se chocam frontalmente com os ideais comunistas. Alguns documentos e ensinamentos magisteriais elucidam essa incompatibilidade. A começar pela Doutrina Social da Igreja, que defende a dignidade intrínseca de cada pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). Nesse sentido, a propriedade privada é vista como uma extensão da liberdade humana e um meio legítimo de garantir o sustento da família. No entanto, ela deve estar a serviço do bem comum e não do egoísmo desenfreado. O Papa Leão XIII, na encíclica Rerum Novarum (1891), condena explicitamente o comunismo, afirmando:

“Mas semelhante teoria [o socialismo], longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Pelo contrário, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social.”

Enquanto Marx e Engels veem a religião como instrumento de alienação, a Igreja reconhece na fé uma dimensão central da existência humana. A tentativa de erradicar a religião em nome de um Estado ateu, como proposto pelo comunismo, é frontalmente contrária à visão católica, pois nega a transcendência do ser humano. O Papa Pio XI, na encíclica Divinis Redemptoris (1937), condena o comunismo ateu, declarando:

“O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele, da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã. E, se alguns, induzidos em erro, cooperassem para a vitória do comunismo no seu país, seriam os primeiros a cair como vítimas do seu erro; e quanto mais se distinguem pela antiguidade e grandeza da sua civilização cristã as regiões aonde o comunismo consegue penetrar, tanto mais devastador lá se manifesta o ódio dos ‘sem-Deus’.”

A Igreja sempre afirmou a sacralidade da família, fundada no matrimônio entre um homem e uma mulher, aberta à procriação e à educação dos filhos. A tentativa comunista de suprimir a estrutura familiar tradicional ataca um dos fundamentos da doutrina católica. A encíclica Familiaris Consortio, de São João Paulo II, reforça essa visão:

“Queridos por Deus com a própria criação, o matrimónio e a família estão interiormente ordenados a complementarem-se em Cristo e têm necessidade da sua graça para serem curados das feridas do pecado e conduzidos ao seu ‘princípio’, isto é, ao conhecimento pleno e à realização integral do desígnio de Deus.”

A proposta comunista é materialista, enquanto a visão católica é profundamente espiritual. Enquanto o comunismo busca criar o “paraíso terrestre” mediante a luta de classes, a fé católica reconhece que a verdadeira redenção só se dá em Cristo e que a justiça social é uma vocação decorrente do amor ao próximo — não de uma luta de poder.

Assim, a tentativa de conciliar comunismo e cristianismo, além de contraditória, implica a negação de princípios fundamentais da fé católica. A Igreja pode e deve lutar por justiça social e dignidade humana, mas o faz partindo da caridade cristã e da verdade revelada, não pela via da revolução materialista e anticristã.

Torna-se evidente, portanto, que não é possível a coexistência autêntica entre o comunismo marxista e a fé cristã católica. Um “cristão comunista” seria, em última análise, alguém dividido entre dois senhores incompatíveis: Cristo e a ideologia materialista de Marx e Engels. Para o católico, é necessário buscar a justiça social por vias que respeitem a dignidade humana, a liberdade religiosa e a ordem natural estabelecida por Deus.