O aborto até o nono mês de gestação (ou, ainda, o Mal e suas sutilezas)

Por: Paulo Vilar

Recentemente, em 10/8/2026, a governadora do Estado americano de Massachusetts, Maura Healey, do partido Democrata, sancionou uma lei que, na prática, autoriza a realização do aborto até o final da gravidez, isto é, até o nono mês de gestação. Antes da nova lei, o Estado geralmente proibia abortos após 24 semanas, com algumas exceções. Após a mudança, Massachusetts passa a integrar o grupo de aproximadamente doze Estados americanos que não estabelecem um limite temporal para a realização do procedimento.

Não é segredo para ninguém que, nos Estados Unidos da América (EUA), o aborto é legalizado na ampla maioria das unidades da Federação, que totalizam cinquenta e uma — 50 Estados mais o Distrito de Colúmbia, onde fica a capital do país (Washington) e que equivale ao nosso Distrito Federal. Em muitos Estados, o aborto provocado é permitido com mais restrições do que em outros, mas, ainda assim, permitido. Só em Massachusetts, entre 2020 e 2024, foram realizados mais de 125.000 procedimentos de aborto induzido, segundo dados oficiais do respectivo Departamento de Saúde Pública. Já na cidade de Nova York (apenas na cidade, não no Estado de mesmo nome), entre 2012 e 2016, era maior a probabilidade de uma criança negra ser abortada do que vir à luz: nesse período, ocorreram 133.000 abortos de crianças negras contra 118.000 nascimentos. Um dado estarrecedor, mas que faria qualquer eugenista dar pulos de felicidade.

Como se essa tragédia não fosse, por si só, extremamente abjeta, ainda há quem defenda que os pais devem ter o direito (vejam só!) de matar os filhos até mesmo depois do nascimento. Teoria da conspiração??!! Infelizmente, não. A ideia de que é possível matar um recém-nascido, alegando que ele ainda não é uma pessoa, tem seus defensores no meio acadêmico — aliás, não é de hoje que a classe dita intelectual é justamente o nascedouro das ideias mais heterodoxas do ponto de vista moral (pra dizer o mínimo). Com efeito, em março de 2012, o jornal Gazeta do Povo, em um editorial,denunciou uma proposta macabrade dois pesquisadores, Francesca Minerva e Alberto Giubilini, feita na publicação britânica Journal of Medical Ethics. No artigo intitulado “Aborto pós-nascimento: por que o bebê deveria viver?”, essa famigerada dupla alegava que matar uma criança recém-nascida deveria ser permitido em todos os casos em que o aborto também é tolerado, inclusive em casos de crianças absolutamente sadias. Os argumentos centrais aventados no artigo em epígrafe eram:

1) Fetos e recém-nascidos compartilham o mesmo status moral, visto que nenhum deles possui as qualidades mentais exigidas para que haja uma verdadeira pessoa;

2) O potencial de um recém-nascido vir a se tornar um verdadeiro ser humano no futuro é moralmente irrelevante em relação ao que é admissível no presente;

3) Dificuldades pelas quais passa uma determinada família podem justificar a morte infligida a um recém-nascido, se ele vier a se tornar um fardo insuportável.

Em outro artigo da mesma Gazeta do Povo,desta vez publicado em 30/11/2014, foi divulgado um estudo realizado em universidades de três Estados americanos em que se constatou haver defensores do infanticídio em todas as instituições consideradas. Além disso, o próprio Journal of Medical Ethics abordou novamente o tema, um ano depois do artigo de Francesca Minerva e Alberto Giubilini, pedindo que 31 especialistas em bioética o comentassem, e alguns deles simplesmente defenderam a prática.

Um outro “filósofo” e bioeticista, o australiano Peter Singer, já em 1979, escrevia que “bebês humanos não nascem com a noção de si próprios, ou capazes de perceber sua existência (…) eles não são pessoas (…) A vida de um recém-nascido vale menos que a de um porco, um cão ou um chimpanzé”. Trinta anos depois, em 2009, na Universidade de Princeton — a quarta mais antiga e uma das mais prestigiadas dos Estados Unidos e que está no rol das 10 melhores universidades do mundo (ninguém menos que Albert Einstein foi professor lá na década de 50) —, o mesmo Peter Singer afirmou que “bebês humanos recém-nascidos não têm senso da própria existência ao longo do tempo. Então, matar um recém-nascido nunca é equivalente a matar uma pessoa, isto é, um ser que deseja seguir vivendo”. No entanto, essa afirmação, tão estapafúrdia quanto monstruosa, ignora completamente as inúmeras imagens de ultrassom que mostram as reações, no ventre materno, de fetos submetidos a abortos: como eles se debatem freneticamente diante dos instrumentos cirúrgicos que lhes tiram a vida.

Evidentemente, houve (e há) sérias reações negativas a essas bizarrices diabólicas, vindas de todos os lados, incluindo filósofos pró-vida. Entretanto, não podemos perder de vista que o Mal (assim mesmo, com inicial maiúscula), não raras vezes, traveste-se de Bem. Como diz São Paulo: o próprio Satanás pode se disfarçar de anjo de luz (2Cor 11,14). E isso ocorre porque, como o ser humano é dotado de razão, se o Mal se apresentasse como realmente é, ou seja, mostrando, numa única tacada, toda a sua fealdade, nós imediatamente o rejeitaríamos. Por isso, o que é mau, caso do aborto, vai avançando de forma gradual e insidiosa para sofrer menos resistência: assim, num primeiro momento, não se admite o aborto em circunstância alguma; depois, ele passa a ser tolerado em algumas hipóteses muito restritas; mais adiante, permite-se a sua realização, sem nenhuma justificativa, até um certo número de semanas de gestação; mais tarde, aceita-se que ocorra até o nono mês de gestação… etc., etc., etc. Até o dia em que o próprio infanticídio passa a ser aceito. Como dizia um saudoso professor de História (brasileiro e muito católico), falecido em 2010: “O veneno é tão mais perigoso quanto mais sutil ele for”. Vale dizer, se o veneno for ministrado em uma dose alta demais, corre-se o risco de o organismo rejeitá-lo imediatamente, mediante o vômito, por exemplo, salvando a vida da pessoa; mas, se for ministrado em doses “homeopáticas”, o organismo da pessoa nem percebe e acaba, depois de algum tempo, levando o indivíduo à morte. Da mesma forma, o Mal vai penetrando em nosso espírito de maneira lenta e sub-reptícia a fim de que a nossa razão (muitas vezes letárgica) não se dê conta dessa nefasta infiltração, até chegar o dia em que ele já nos domina. E o preço é, muito provavelmente, a perda da salvação.

Assim sendo, lembremos que as eleições para cargos federais e estaduais estão chegando e que, como católicos, não podemos votar em candidatos e/ou partidos que apoiam a legalização do aborto e outras aberrações integrantes do que a Igreja Católica — muito acertadamente, aliás — chama de cultura da morte. Caso contrário, não estará longe o dia em que os brasileiros terão de assistir também ao espetáculo tétrico do infanticídio sendo praticado legalmente nestas plagas.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate!