Os Dons do Espírito Santo – Parte II

Por Sergio Vellozo

(Este artigo é continuação do que foi publicado em 22/05/2026)

O santo Temor de Deus faz a alma perceber a desproporção descomunal entre nós humanos e Deus. Ficamos maravilhados e quase arrasados, em profunda reverência, diante de tamanha perfeição, pureza, poder e majestade. Evita o grande mal do nosso tempo que é tratar as coisas de Deus com perspectivas e medidas humanas. Deus nos supera infinitamente em tudo.

Certa vez Frei Leão procurava São Francisco de Assis e “aproximando-se, viu que ele estava de joelhos em oração, com o rosto e as mãos levantados para o céu e, com fervor de espírito, dizia: “Quem és tu, ó dulcíssimo Deus meu? Quem sou eu, vilíssimo verme e inútil servo teu?”. Repetia sempre essas mesmas palavras e não dizia nenhuma outra coisa. Por isso Frei Leão, muito admirado disso, levantou os olhos e olhou para o céu. Olhando assim, viu baixar do céu uma chama de fogo belíssima e esplendidíssima, que, descendo, pousou na cabeça de São Francisco. Ouvia que saía uma voz dessa chama, que falava com São Francisco”.

(I Fioretti, Considerações sobre os Estigmas 3)

Poucos dias depois, estando em oração, São Francisco vê descer do alto um serafim com seis asas flamejantes que traz do Céu o mistério do crucificado e deixa no santo os estigmas. O que nos remete à visão de Isaías e à liturgia celestial.

No ano da morte do rei Ozias, eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas de seu manto enchiam o templo. Os serafins se mantinham junto dele. Cada um deles tinha seis asas; com um par de asas velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam. Suas vozes se revezavam e diziam: Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória! A este brado as portas estremeceram em seus gonzos e a casa encheu-se de fumo.
Ai de mim, gritava eu. Estou perdido porque sou um homem de lábios impuros, e habito com um povo de lábios impuros e, entretanto, meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos!
(Isaías 6:1-5)

O impacto da constatação de como somos nada diante do Altíssimo pode nos prostrar e paralisar.  O próximo dom auxilia a sair desse aniquilamento.

A santa Piedade nos faz perceber o carinho amoroso e paternal de Deus para conosco. Permite reconhecer o convite para uma familiaridade filial com Deus, o Abba.  A compreensão sobre o amor de Deus que este dom revela ajudou Santa Teresinha do Menino Jesus a vencer a tentação de escrúpulo. Sua doutrina da Infância Espiritual, sintetizada no caderno B da História de uma Alma, é fruto deste dom. Encontramos um breve resumo na resposta à Irmã Inês, que perguntou a Santa Teresinha, poucos dias antes de ela morrer, o que é permanecer uma criança diante do bom Deus:

“É reconhecer o próprio nada, esperar tudo do bom Deus, como uma criança espera tudo do pai; é não se preocupar com nada, não ganhar fortuna. Mesmo entre os pobres, a criança recebe o que precisa, mas assim que cresce o pai não quer mais alimentá-la e lhe diz: Trabalhe agora, você pode se bastar.

Foi para não ouvir isso que não quis crescer, sentindo-me incapaz de ganhar o meu sustento, a vida eterna do Céu. Por isso, sempre permaneci pequena, não tendo outra ocupação senão colher flores, as flores do amor e do sacrifício, e oferecê-las ao bom Deus para seu prazer.

Ser pequeno ainda é não atribuir a si mesmo as virtudes que se praticam, acreditando-se capaz de algo, mas reconhecer que o bom Deus coloca este tesouro na mão de seu filhinho para que ele o use quando necessário; mas ainda é o tesouro de Deus. Finalmente, é não desanimar com as próprias faltas, porque muitas vezes as crianças caem, mas são muito pequenas para se prejudicarem muito”.  
 
https://archives.carmeldelisieux.fr/pt/archive/cj-aout-1897/#6-aout

Santa Faustina recebe um ensinamento semelhante do próprio Senhor:

“Hoje, durante a Santa Missa, junto ao meu genuflexório vi o Menino Jesus que parecia ter um ano, e que me pediu que Lhe pegasse ao colo. Quando O tomei nos braços, estreitou-se ao meu coração e disse: Estou bem junto do teu coração.
Embora sejas tão pequeno, eu sei que és Deus. Por que tomas o aspecto de um menino para estares comigo? Porque quero ensinar-te a infância espiritual. Quero que sejas muito pequena, já que sendo pequenina levo-te junto do Meu Coração, assim como tu Me tens neste momento junto ao teu coração. Nesse momento fiquei só, mas ninguém poderá compreender o que sentia a minha alma, estava toda submergida em Deus como uma esponja lançada no mar…” (Diário 1481).

Conjugando o santo Temor com a santa Piedade, encontramos a postura justa de filhos pequenos, respeitosos, obedientes e muito amados por nosso Deus e Pai.

A santa Ciência nos mostra como Deus quer que as coisas sejam. Faz perceber o que está certo e o que está errado, o que é bem feito e o que é mal feito. Na condição do mundo decaído, essa luz pode ser terrível. 

Ora, este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más. Porquanto todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas aquele que pratica a verdade vem para a luz. Torna-se assim claro que as suas obras são feitas em Deus.
(João 3:19-21)

Necessitamos da santa Ciência para fazer nosso exame de consciência e para realizar a obra de Deus da forma certa, como Ele determina que deve ser feita. Nosso Senhor, que tem a plenitude da Ciência, nos dá o exemplo dizendo: “O meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (João 5:30).
E não basta haver instruções, manuais e ensinos, necessitamos perceber como Deus olha. Aparentemente pode tudo estar certo quando, de fato, está tudo errado. Deus vê o coração (1 Samuel 16:7). É interessante como em certos lugares percebemos, como por um olfato sobrenatural, o bom odor de Cristo. Como é diferente, por exemplo, uma liturgia bem-feita. Lógico que a desobediência objetiva às rubricas já revela o erro, mas não basta. Por exemplo, uma música adequada, muito bem tocada, mas com espírito de vaidade ou espírito de poder, é algo mal feito. É sofrido ver a obra de Deus sendo mal feita. É sofrido também ver nossa própria desordem. O Cura d’Ars relata que pediu a Deus a graça de conhecer sua própria miséria. Ao ser atendido, a visão do “abismo” de sua alma foi tão profunda e aterradora que ele sentiu que não suportaria a existência se Deus não o envolvesse imediatamente em Sua misericórdia.

Ver tantos erros ao redor e a nossa dificuldade de acertar pode desencorajar e desanimar. O próximo dom vai nos revigorar.

A santa Fortaleza faz ver os recursos que Deus tem ao nosso dispor e quanto Ele é poderoso e forte. Quando percebemos o poderio de Deus, todas as dificuldades, ameaças e mesmo nossa fraqueza se tornam coisas que podemos suportar e enfrentar com coragem. É como o caso do servo de Eliseu que, sem perceber o exército celeste, ficou alarmado diante dos inimigos até que Deus lhe abriu os olhos (2 Reis 6,15-17). Diante do relato das tribulações de São Paulo, nos perguntamos como não desanima, desiste e vai embora?

Cinco vezes recebi dos judeus os quarenta açoites menos um. Três vezes fui flagelado com varas. Uma vez apedrejado. Três vezes naufraguei, uma noite e um dia passei no abismo.  Viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte de meus concidadãos, perigos da parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos! Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! Além de outras coisas, a minha preocupação cotidiana, a solicitude por todas as igrejas!  Quem é fraco, que eu não seja fraco? Quem sofre escândalo, que eu não me consuma de dor?
(2 Coríntios 11:24-29)

Mas, assim como ele, vemos a mesma tenacidade na vida de tantos santos e mártires, alguns inclusive bem crianças. É Deus quem empresta a eles Sua força e poder para poderem aguentar, perseverar no combate e triunfar (Efésios 3,20; 6,10; Colossenses 1,11).

O dom da Fortaleza não permite confundir o que é do divino com o que é do humano. São Paulo nos testemunha a maravilhosa lição que recebeu. 

Mas o Senhor disse-me: “Basta-te a minha graça; pois é na fraqueza que a força se realiza plenamente”. Por isso, de bom grado, me gloriarei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim; e me comprazo nas fraquezas, nos insultos, nas dificuldades, nas perseguições e nas angústias por causa de Cristo. Pois, quando estou fraco, então é que sou forte.
(2 Coríntios 12,9-10)

Reconhecendo a Onipotência do Altíssimo e totalmente seguros do seu amor, temos certeza da vitória (Romanos 8,35-39). Assim, com santa Fortaleza vamos para a batalha onde a santa Ciência indicou que faltam a justiça e a ordem que agrada a Deus.

Pois quem é Deus senão o SENHOR? Quem é um rochedo senão o nosso Deus?
Foi ele que me encheu de força e aplainou minha estrada,
deu-me pés velozes como os das corças e me faz estar seguro nas alturas;
treinou minhas mãos para a guerra e meus braços para tender o arco de bronze.
(Salmos 17/18,32-35)

(Este artigo continua na semana que vem)…