Os Dons do Espírito Santo

Por Sergio Vellozo

No momento em que a pessoa é concebida no ventre da mãe, Deus cria sua alma e a infunde no corpo embrionário que está surgindo. É como Deus soprando nas narinas de Adão.

“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gênesis 2,7).

Essa doutrina é razoavelmente bem conhecida. A alma imortal sobrevive à morte corporal, experimenta o juízo particular e fica aguardando a ressurreição da carne para comparecer no juízo final.

Algo de que pouca gente se dá conta é que a pessoa, ao ser batizada, recebe um organismo novo. Recebe um organismo de vida sobrenatural. Há uma nova criação associada a um novo nascimento. A alma que inalamos de Deus na concepção nos torna humanos. A graça santificante que recebemos no batismo nos torna filhos de Deus no Filho que é Cristo.

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1, 12.13).

Esse organismo que recebemos é uma realidade espiritual, acoplada na nossa alma, que fica envolvida em certo mistério. A delimitação da fronteira entre a alma e o corpo não é simples. Toda atividade cerebral e as faculdades mentais interagem com a alma de forma obscura. Ainda são controvertidos os estudos científicos, como o do neurocirurgião Michael Egnor ou o do Prof. Alexander Batthyány, sobre consciência e faculdades cognitivas de pessoas com graves lesões ou paralisia no cérebro. Christopher Langan sugere que o cérebro interage com a alma como o celular que acessa e guarda informações no servidor. A dificuldade aumenta quando temos a terceira camada: a graça santificante interagindo com a alma, que interage com o corpo.

Há, de fato, uma dificuldade para nossa mentalidade terrena entender coisas celestiais (1 Coríntios 2,12-14; 1 Coríntios 3,1.2; João 3,12). A interação da graça santificante com a nossa alma não é algo óbvio. Na alma está nossa consciência, nossa liberdade. Quando alguém decide aprender uma arte ou praticar um esporte, usa da liberdade para colocar as faculdades físicas e mentais do corpo em ação e se exercitar no que decidiu. Enquanto não houver a escolha, nada acontece. Da mesma forma, a graça santificante fica inerte se a liberdade não escolher colocá-la em funcionamento. Mas como escolher sem saber que ela existe e para que serve?

Nessa hora, é precioso contar com a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja para nos ensinar e esclarecer. Também necessitamos invocar o Espírito Santo, que tem a missão de nos levar à plena verdade. Sem essa ajuda do Alto, somos como crianças que ouvem sem entender.

Senhor nosso Deus, que sois bom e generoso e quereis nos dar vida em plena liberdade, em nome do nosso Senhor Jesus, suplicamos as luzes do Espírito Santo para entendermos a imensidão do teu amor e o poder da graça santificante que recebemos no batismo. Amém!

Temos no Catecismo da Igreja Católica (CIC) um precioso recurso para esclarecer as coisas da nossa vida em Cristo. O parágrafo 1265 apresenta a nova condição de vida que recebemos:

O Batismo não somente purifica de todos os pecados, como faz também do neófito «uma nova criatura» (2 Coríntios 5,17), um filho adotivo de Deus (Gálatas 4, 5-7.), tornado «participante da natureza divina» (2 Pedro 1, 4), membro de Cristo (1 Coríntios 6, 15; 12, 27) e coerdeiro com Ele (Romanos 8, 17), templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6, 19).

Impressionante saber que esse ser novo, recriado, que antes tinha parte na natureza humana, com o batismo, passa a ter também parte na natureza divina. Essa participação no divino se dá pela graça santificante inserida na alma, como resume o parágrafo 1266:

A Santíssima Trindade confere ao batizado a graça santificante, a graça da justificação, que

– o torna capaz de crer em Deus, esperar n’Ele e O amar, pelas virtudes teologais;

– lhe dá o poder de viver e agir sob a moção do Espírito Santo, pelos dons do Espírito Santo;

– lhe permite crescer no bem, pelas virtudes morais.

Assim, todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tem a sua raiz no santo Batismo.

As virtudes teologais são a fé, a esperança e a caridade. Elas “adaptam as faculdades do homem à participação na natureza divina … e dispõem os cristãos para viverem em relação com a Santíssima Trindade” (CIC 1812). Existem excelentes escritos sobre essas virtudes. Entre eles vale destacar os de São João da Cruz, o Doctor Mysticus. Ele explica que a alma humana possui três faculdades: entendimento, memória e vontade. Cada uma delas é purificada e elevada por uma virtude teologal: a fé ilumina o entendimento, a esperança purifica a memória e a caridade ordena a vontade. Uma boa introdução a esses ensinamentos é a tese de Doutorado em Teologia de Karol Wojtyla (São João Paulo II), orientada por R. Garrigou Lagrange O.P. no Angelicum de Roma:
A DOUTRINA DA FÉ SEGUNDO SÃO JOÃO DA CRUZ.

O outro componente do organismo de vida sobrenatural são os dons do Espírito Santo. A descrição nos parágrafos 1830 e 1831 do CIC é sucinta:

A vida moral dos cristãos é sustentada pelos dons do Espírito Santo. Estes são disposições permanentes que tornam o homem dócil aos impulsos do Espírito Santo. Os sete dons do Espírito Santo são: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus. Pertencem em plenitude a Cristo, filho de David (Isaías 11, 1-2). Completam e levam à perfeição as virtudes de quem os recebe. Tornam os fiéis dóceis, na obediência pronta, às inspirações divinas.

Os sete dons

  • evitam que nossa vida em Cristo definhe e a fazem desabrochar,
  • estão na pessoa de forma estável e habitual,
  • são uma participação naquilo que é próprio de Cristo,
  • completam e aperfeiçoam as virtudes,

mas, especialmente,

  • tornam o cristão dócil.

Dócil a quê? Aos impulsos do Espírito Santo e às inspirações divinas.
Dócil como? Capaz de obediência pronta.

No mundo físico, captamos o ambiente pelos cinco sentidos do corpo e assim podemos, por exemplo: nos proteger do frio, ver o caminho, ouvir a buzina, etc… No mundo sobrenatural, captamos o divino pelos dons do Espírito Santo. Eles nos fazem sensíveis ao divino permitindo assim nossa obediência. Embora cada dom seja distinto dos outros, eles funcionam em conjunto para nos fazer perceber as coisas de Deus.

“… o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus. … as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as graças que Deus nos prodigalizou” (1Coríntios 2,10-12).

Mas o que cada dom faz perceber? ”O temor do Senhor é o princípio da Sabedoria” (Salmo 110,10; Provérbios 9:10). Vamos considerar nesta ordem.

(Este artigo continua na próxima semana)…