Por que ensinamentos essenciais da Fé nos foram negados?

Por Thais Yonezawa de Paula Oliveira

Acredito que muitos de nossos assíduos leitores estejam se perguntando: “Por que eu nunca tinha ouvido falar dessas coisas antes?”. Talvez você seja catequista já há 10 anos ou Ministro Extraordinário da Comunhão Eucarística há 15 anos ou apenas frequente a Santa Missa todo domingo já há 20 anos. Existe uma possibilidade muito grande de, mesmo participando ativamente de várias coisas na paróquia já há tanto tempo, nunca ter aprendido que você foi criado para ser Santo, ou que Jesus Cristo veio para nos abrir as portas do Céu, ou ainda que a Igreja Católica é a única Igreja fundada por Nosso Senhor, ou sobre as Missas de Preceito e a abstinência de carne obrigatória das sextas-feiras. Enfim, a pergunta que pode estar passando pela sua cabeça é: “Por que nada disso me foi ensinado?”. Bom, responder a essa pergunta é a principal finalidade deste artigo. Para isso, terei de tocar em pontos sensíveis até mesmo incômodos, mas que são extremamente necessários para entendermos o real motivo de nos terem sido negados, por tantos anos, os princípios mais básicos e fundamentais da nossa Fé Católica.

São Paulo diz, na Carta aos Colossenses, que Cristo é a Cabeça e nós somos o corpo, que é a Igreja. Ora, não pode haver separação entre cabeça e corpo. A vida da cabeça é a mesma vida do corpo. Isso significa que a vida da Igreja é a mesma vida de Cristo. E como foi a vida de Cristo? Na vida de Jesus, houve perseguições externas (fariseus, saduceus, povo judeu, romanos, Pilatos, Herodes, Anás, Caifás) e traições internas (Judas Iscariotes, negação de Pedro e seus próprios familiares que o chamavam de louco). A vida da Igreja nunca foi diferente. E o próprio Cristo já nos disse que seria assim: “Se me perseguiram, perseguirão a vós também” (Jo 6, 13). Desde seu nascimento, a Igreja é marcada por perseguições externas, como as difamações, prisões, torturas, derramamento de sangue, que resultaram no martírio de grandes homens ao longo de todos os séculos. Além das perseguições externas, sempre houve as perseguições internas de pastores que se comportaram como lobos, dando origem às mais diversas heresias, causando a ruína e a perdição eterna de muitíssimas almas.

O que é uma heresia?

Segundo o Catecismo de São Pio X (363): a heresia é um erro culpável de inteligência, pelo qual se nega obstinadamente alguma verdade de fé.

As heresias entram pela porta do Clero.

Exemplos de algumas das grandes heresias já combatidas pela Igreja:

  • Sabellius: Desafiou o dogma da Santíssima Trindade;
  • Ário: Não reconhecia a divindade de Nosso Senhor;
  • Nestório: Dizia que Maria não é Mãe de Deus;
  • Macedônio: Dizia que o Espírito Santo não é Deus;
  • Pelágio: Dizia que não há pecado original;
  • Iconoclastas: Proibia o uso de imagens;
  • Berangário: Negou a presença real de Cristo na Eucaristia;
  • Protestantismo: Negou a Tradição e o Magistério.

Todas essas heresias já foram debatidas em Concílios.

O que é um Concílio?

Um concílio é uma reunião de autoridades eclesiásticas com o objetivo de discutir e deliberar sobre questões pastorais, de doutrina, fé e costumes. A Igreja convoca um Concílio para resolver algum problema, combater o erro e proclamar a Fé. Exemplo: Atos dos Apóstolos, capítulo 15.

Concílio Ecumênico é aquele que reúne todos os Bispos da Igreja. Tivemos, até hoje, 21 Concílios Ecumênicos:

  1. Niceia I – 325. Assunto principal: combater a heresia do Bispo Ário;
  2. Constantinopla I – 381. Assunto principal: a confissão da divindade do Espírito Santo;
  3. Éfeso – 431. Assunto principal: combater a heresia de Nestório;
  4. Calcedônia – 451. Assunto principal: afirmar as duas natureza de Cristo (humana e divina);
  5. Contantinopla II – 553. Assunto principal: condenar os hereges que seguiram Nestório;
  6. Contantinopla III – 681. Assunto principal: condenar a heresia do monotelismo;
  7. Niceia II – 787. Assunto principal: combater a heresia dos iconoclastas;
  8. Constantinopla IV – 870. Assunto principal: acabar com o cisma de Fócio;
  9. Latrão I – 1123. Assunto principal: confirmar a Concordata Worm;
  10. Latrão II – 1139. Assunto principal: o cisma de Anacleto II;
  11. Latrão III – 1179. Assunto principal: fixar regras para a eleição do Papa;
  12. Latrão IV – 1215. Assunto principal: fixou a obrigatoriedade da comunhão e confissão anuais;
  13. Lyon I – 1245. Assunto principal: deposição do imperador Frederico II;
  14. Lyon II – 1274. Assunto principal: tratar das cruzadas, fixar regras sobre o Conclave;
  15. Viena – 1312. Assunto principal: supressão da Ordem dos Templários;
  16. Constança – 1414 a 1418. Assunto principal: extinção do Grande Cisma, condenar João Hus;
  17. Basiléia – 1431 a 1442, com várias pausas. Assunto principal: reunião com os gregos;
  18. Latrão V – 1512 a 1517. Assunto principal: combater o concílio cismático de Pisa;
  19. Trento – 1545 a 1563. Assunto principal: combater a reforma de Lutero e reformar a Liturgia;
  20. Vaticano I – 1869 a 1870. Assunto principal: definir a doutrina da infalibilidade papal;
  21. Vaticano II – 1962 a 1965. Assunto principal: apresentar aos homens do tempo moderno a doutrina de sempre.


Concílio Vaticano II

Foi o 21º Concílio da Igreja. O CVII foi diferente de todos os outros. Não foi dogmático, não procurou definir, nem proclamar um ensinamento. Foi um Concílio Pastoral.

O Papa São João XXIII disse, ao proclamar o Concílio, que seu objetivo era: “buscar uma maneira de proclamar a fé de sempre, de modo que o homem moderno possa entender”. Desde Pio XI já havia essa vontade, porque o CVI teve de ser interrompido com o disparo de um canhão anunciando a entrada da Itália na Guerra. Pio XII queria fazer, mas foi aconselhado a não fazê-lo por causa da Guerra Fria. Morre em 1958. No mesmo ano, assume São João XXIII. Em apenas um ano como Papa, resolve convocar o CVII, que seria “uma nova primavera para a Igreja”. São João XXIII morre no primeiro ano do Concílio; quem assume é o Papa São Paulo VI, que disse, posteriormente, que o Concílio foi um fracasso. O clima que se criou pós-concílio causou um afastamento das pessoas da Fé.

  • Expectativa: Papa São João XXIII, em 25/12/1961: Este Concílio “será uma demonstração da Igreja, sempre viva e sempre jovem, que sente o ritmo do tempo e que, em cada século se orna de um novo esplendor, irradia novas luzes, realiza novas conquistas, permanecendo, contudo, sempre idêntica a si mesma”. Discurso de Abertura Solene do Concílio em 31/10/1962: “O Concílio trará à Igreja ‘maior clareza… novas energias… dia que promete a luz mais brilhante’”.
  • Realidade: Papa São Paulo VI, após o Concílio, em 07/12/68: “A Igreja atravessa hoje um momento de inquietação”. “Ninguém estava à espera depois do Concílio”. “A Igreja é ferida por aqueles que fazem parte dela”. Em 29/6/1972, na Homilia da Solenidade de São Pedro e São Paulo: “Tem-se a sensação de que a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus por alguma fresta que estava aberta. Encontramos dúvidas, incertezas, problemáticas, inquietações, insatisfações e confrontos e já não se confia mais na Igreja. A dúvida entrou nas nossas consciências e entrou nas janelas que deveriam estar abertas à luz e este estado de incerteza também domina dentro da Igreja. Julgava-se que depois do Concílio viria um dia de sol para a história da Igreja, mas veio um dia de nuvens, tempestade, escuridão, de busca e de incerteza” (7 anos após o CVII).

Consequência: a forma se tornou mais importante que o conteúdo.

Por que as consequências do Concílio Vaticano II foram tão diferentes das esperadas?

O problema não está nos documentos do Concílio, que são totalmente fiéis à Doutrina de Sempre. O problema está no chamado “espírito do Concílio”, divulgado por Bispos os quais queriam grandes mudanças no ensinamento da Igreja.

Heresias que surgiram a partir do CVII

Baseado no “espírito do Concílio”, que em nada correspondia aos documentos escritos, surgiu um grande erro, que originou duas grandes heresias. O grande erro foi achar que o Concílio estava dando origem a algo novo, algo diferente do que a Igreja sempre ensinou. Diante desse enorme erro, surgiram, como dito, duas grandes heresias: a heresia daqueles que queriam viver apenas o Pré-Concílio, chamados de Tradicionalistas, e a heresia daqueles que queriam viver apenas o Pós-Concílio, que deu origem à Teologia da Libertação, em 1971.

É um grande erro querer fatiar o Concílio Vaticano II e achar que ele é um marco de início ou de fim da Igreja de Nosso Senhor. Os documentos do Concílio devem ser lidos à luz dos 20 Concílios anteriores, de toda a Tradição, do Magistério e das Sagradas Escrituras. O CVII não deu origem a algo novo. Ele apenas mudou a didática para ensinar um conteúdo que jamais se alterou.

Os Tradicionalistas erram ao julgar que o Espírito Santo abandonou a Igreja, que os Papas todos depois do Concílio não foram escolhidos por Deus, o que vai contra algo definido no Vaticano I. Essa heresia pode levar ao desespero de se achar que nenhum Sacramento celebrado pelos Padres do Pós-Concílio é válido e que os Santos canonizados depois do CVII não são Santos da Igreja. Essa heresia, embora gravíssima, encontra pouquíssimos seguidores se comparada à heresia da Teologia da Libertação, tão grave quanto e amplamente defendida e difundida pelo nosso país.

Principais erros propagados pela Teologia da Libertação:

  1. Jesus não fazia milagres reais, era apenas um libertador social (a multiplicação dos pães se transforma em partilha; a cura do leproso se transforma em inclusão; a ressureição de Lázaro se transforma em erguer o que estava desanimado; a própria Ressurreição de Nosso Senhor significa apenas que a “causa” de Jesus não morreu).
  2. Negar a existência do inferno e do Demônio (para eles, todos vão para o Céu porque Deus  ama a todos indistintamente. Porém, justamente por nos amar é que Ele permite que sejamos tão livres a ponto de nos permitir escolher negá-Lo).
  3. Colocar os pecados sociais acima dos pecados pessoais (não se fala em conversão, fuga do pecado que ofende a Deus; fala-se apenas de uma conscientização ecológica e fraterna).
  4. Tirar a Sacralidade da Liturgia, principalmente na Santa Missa (a liturgia torna-se um instrumento para difusão das ideias sociais – “Missa afro”, “Missa das 7 águas”, “Missa caipira”).
  5. Banalizar os Mandamentos, principalmente no tocante à moral sexual (casais de segunda união são convidados a comungar; fornicação deixa de ser pecado).
  6. Igualar todas as opções políticas como sendo todas aceitas pela Santa Igreja (não há uma orientação para que os fiéis leiam os documentos da Igreja que condenam o Comunismo). 
  7. Acreditar que a Igreja adapta sua Doutrina de acordo com o tempo (“antigamente o divórcio era errado porque a mulher era oprimida, mas hoje, com o surgimento dos direitos das mulheres, tudo mudou”. Na verdade, nada mudou, nem para homens, nem para mulheres).
  8. Afirmar que na Igreja há uma horizontalidade, isto é, que o Papa, os Bispos e os Padres são iguais aos leigos (os Sacerdotes são superiores a nós, já que eles têm um poder que os leigos não têm).


Como reagir diante dessa heresia?

Nosso primeiro desafio é não cair nela. Para tal, é necessário estudar; e estudar sempre. Pela  boca  do  profeta,  o  Espírito  já  afirmou:  “…  porque  meu  povo se perde por falta de conhecimento…” (Os 4,6). Em segundo lugar, é necessário ajudar as pessoas próximas a não caírem nela também, por meio do ensino e, como diz São Josemaria Escrivá, não podemos nos furtar dessa obrigação:

“Dantes,  como  os  conhecimentos  humanos  –  a  ciência  –  eram  muito  limitados,  parecia  bem  possível  que  um  só  homem  sábio  pudesse  fazer  a  defesa  e  a  apologia  da  nossa  santa  Fé.  Hoje,  com  a  extensão  e  a  intensidade  da  ciência  moderna,  é  preciso  que  os  apologistas  dividam  entre  si  o  trabalho,  para  defenderem  cientificamente  a  Igreja  em  todos os campos.  – Tu… não podes furtar-te a essa obrigação” (Caminho, 338).

Em terceiro lugar – e não menos importante –, é necessário exercer a caridade com aqueles que já caíram nela. Quantas pessoas próximas (catequistas, leitores, coordenadores de pastorais e – lamentavelmente – Sacerdotes) caíram no erro? Não podemos desistir da conversão de nenhuma dessas pessoas, mesmo porque Nosso Senhor não desistiu da nossa. Para isso, é importante rezar e se sacrificar por cada uma das pessoas que estão cegas pela ideologia. Nossa Senhora disse aos três pastorinhos de Fátima que muitas pessoas vão para o inferno por não terem quem reze e se sacrifique por elas. Não deixemos de fazer nossa parte e, quando possível, presenteemos alguém com algum bom livro, compartilhemos conteúdos que sejam fiéis ao ensinamento da Igreja, fazendo o Apostolado da amizade, definido por São Josemaria como uma “amizade ‘pessoal’, sacrificada, sincera: de tu a tu, de coração a coração”.

Indicações para aprofundamento:

Catecismo da Igreja Católica: §2425;
Artigo “Eu vos explico a Teologia da Libertação” – Cardeal Joseph Ratzinger;
Artigo “Verdades, erros e perigos na Teologia da Libertação” – Cardeal Agnelo Rossi;
Documento “Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação” – Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé;
Documento “Libertatis conscientia” – Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé;
Documento “Declaración de los Andes” – Cardeal Alfonso López Trujillo, arcebispo de Medellín;
Documento “Decreto contra o Comunismo” – Papa Pio XII;
Encíclica “Divinis Redemptoris” – Papa Pio XI;
Livro “A voz dos Papas contra o Comunismo” – reunião de Encíclicas contra o Comunismo, Ed. Caritatem;
Filme “Eles estão no meio de nós”, disponível gratuitamente no YouTube do influenciador Bernardo Küster;
Curso “Marxismo Cultural”, disponível gratuitamente no YouTube do Padre Paulo Ricardo;
Curso “O Bom Combate”, vendido pelo influenciador Bernardo Küster.