Por que estudar História da Filosofia?

Por Paulo Vitor

Introdução

Antes de falarmos sobre o porquê de estudar a História da Filosofia, precisamos entender como ela é dividida; só depois devemos entender o porquê e, em seguida, devemos saber qual método vamos utilizar para estudar essa disciplina. Querendo ou não, é uma jornada longa, cheia de altos e baixos, e a primeira coisa que precisamos ter em mente é que, diferentemente da tecnologia, que nos dá a sensação de que tudo o que é moderno é melhor e que o antigo é pior, já que a tecnologia está sempre evoluindo, a História da Filosofia não é assim.

Não é porque o pensador é mais recente na história que ele é melhor, nem porque uma corrente filosófica é mais antiga que ela é pior do que as mais recentes.

Mas, antes de mergulharmos de cabeça na História da Filosofia, precisamos definir rapidamente o que é filosofia. E essa é justamente uma das coisas que a própria filosofia nos ajuda a fazer: definir o que é e o que não é.

O que é filosofia?

A palavra filosofia vem do grego e é a junção de duas palavras: phílos (φίλος), que significa “amigo”, “amante”, e sophía (σοφία), que significa “sabedoria”. Portanto, filosofia significa literalmente “amor à sabedoria”, ou “amizade pela sabedoria”. E, por que não, “busca da sabedoria”? Afinal, quando amamos algo, queremos estar perto desse algo.

Segundo a tradição antiga, quem primeiro utilizou esse termo foi Pitágoras (570 a.C. – 495 a.C.). Ele dizia que não era digno do título de sábio (sophós), preferindo ser chamado de filósofo, isto é, amigo da sabedoria.

Sendo assim, o filósofo é aquele que busca a sabedoria, que quer conhecer a verdade. Eu gosto muito de definir a filosofia como a busca da verdade. Ora, se dissermos que tal sujeito é filósofo, o mínimo que ele precisa ter para realmente ser um filósofo é retidão na busca da verdade. Se o interesse dele não for a verdade, mas apenas as teses que ele defende, então, no fundo, ele não é um filósofo, mas um ideólogo; está fazendo ideologia, e não filosofia.

Isso precisa estar claro desde já, pois será esse o nosso termômetro para saber se o filósofo é bom ou não, se a corrente filosófica é boa ou não. Quanto mais alguém busca sinceramente a verdade, melhor filósofo ele será.

A divisão da História da Filosofia

Dito isso, o próximo passo é saber como a História da Filosofia é dividida. A divisão acompanha a própria História Geral: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea.

Para não estender demais, vou simplificar quando começa e quando termina cada uma dessas fases.

A História da Filosofia Antiga começa tradicionalmente com Tales de Mileto (624 a.C. – 546 a.C.). Outros dizem que Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) foi o verdadeiro pai da filosofia e que os filósofos chamados de pré-socráticos apenas estavam tateando o que era filosofia. Segundo essa visão, Sócrates foi quem realmente desenvolveu um projeto filosófico consciente, ou seja, somente ele sabia exatamente o que estava fazendo e qual era o fim que pretendia alcançar.

Mas, independentemente de quem tenha sido o “pai da filosofia”, é consenso que ela nasceu na Grécia, durante a Idade Antiga.

A transição da Idade Antiga para a Idade Média é marcada historicamente pela Queda do Império Romano do Ocidente (476). Mas, além desse marco histórico, houve também uma mudança profunda no modo de fazer filosofia.

O mesmo acontece com a transição da Idade Média para a Idade Moderna. Historicamente, o grande marco é a Queda de Constantinopla (1453), que marcou o fim do Império Bizantino. E, mais uma vez, também houve uma mudança radical na maneira de filosofar.

E (adivinhem!) o mesmo acontece na passagem da Idade Moderna para a Contemporânea. Claro que, dentro de cada período, houve diversas mudanças no modo de fazer filosofia, afinal, cada filósofo deu a sua contribuição. Porém, existem alguns marcos e alguns filósofos importantes que ajudam a caracterizar cada época.

Por exemplo, os dois principais filósofos da Idade Antiga são, sem dúvida, Platão (428 a.C. – 348 a.C.) e Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.). Os dois possuem pensamentos diferentes, mas também várias semelhanças. Eles não são tão contraditórios quanto dizem por aí. Existe até aquela famosa pintura de Rafael Sanzio (1483 – 1520), A Escola de Atenas, em que Platão aponta para cima e Aristóteles aponta para baixo. Mas veremos que ambos falam tanto das coisas “de cima” quanto das “de baixo”.

Os dois grandes nomes da filosofia medieval são Santo Agostinho (354 – 430) e Santo Tomás de Aquino (1225 – 1274). Alguns simplistas e mal-informados dizem que eles são apenas um espelho de Platão e Aristóteles. Essa fama surgiu porque Santo Agostinho leu autores platônicos, o que inevitavelmente influenciou seu pensamento. Mas é exagero dizer que ele simplesmente “batizou Platão”, como se tivesse apenas revestido a filosofia platônica de cristianismo.

O mesmo dizem sobre Santo Tomás, afirmando que ele apenas colocou uma “batina” em Aristóteles. É verdade que ambos beberam dessas fontes, mas reduzir seus pensamentos a isso é injusto. Tanto Santo Agostinho quanto Santo Tomás desenvolveram pensamentos originais, formularam perguntas próprias e deram soluções próprias.

Depois temos dois grandes nomes da Filosofia Moderna: René Descartes (1596 – 1650) e Immanuel Kant (1724 – 1804), sendo que Kant praticamente faz a transição da Filosofia Moderna para a Contemporânea.

O famoso cogito ergo sum (“penso, logo existo”), formulado por Descartes em 1637 na obra Discurso do Método, marca simbolicamente o início da filosofia moderna. Descartes inaugura um “novo” modo de filosofar, bastante diferente da filosofia medieval.

Descartes era racionalista; do outro lado estavam os empiristas. Então surge Kant tentando resolver o problema entre ambos. Para isso, ele faz outra mudança radical na filosofia com sua teoria dos juízos e com a Crítica da Razão Pura (1781). De certo modo, a filosofia contemporânea se desenrola entre concordar ou discordar de Kant. Claro, estou sendo bem simplista aqui.

Já na filosofia contemporânea, é difícil apontar apenas dois filósofos de maior destaque. Então aqui entra um pouco mais a minha opinião pessoal: destaco Edmund Husserl (1859 – 1938), fundador da fenomenologia, e Edith Stein (1891 – 1942), também conhecida como Santa Teresa Benedita da Cruz.

Edith Stein foi aluna e assistente de Husserl, depois professora universitária e, mais tarde, converteu-se ao catolicismo e tornou-se carmelita. Ela morreu em 1942, no campo de concentração de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial.

Na minha opinião, eles trouxeram para a filosofia contemporânea uma certa sanidade que havia se perdido. Porque, convenhamos, na contemporaneidade às vezes parece que alguns filósofos são mais inimigos da sabedoria do que amigos dela.

Adquirir o conhecimento acumulado

Bom, depois dessa longa divagação sobre a divisão da História da Filosofia, vamos finalmente para o centro deste artigo: “por que estudar História da Filosofia?”.

Poderíamos dar apenas um motivo, mas isso ainda ficaria muito vago. Então vamos trabalhar com dois.

O primeiro é que, ao estudarmos a História da Filosofia, vemos como o pensamento humano foi se desenvolvendo ao longo dos séculos. Entramos em contato com as verdades que a alma humana pôde contemplar e vamos assimilando essa tradição filosófica.

Assim, adquirimos um conhecimento muito maior do que nós mesmos e percebemos que somos como um grão de areia na praia diante da imensidão do conhecimento humano.

Aprendemos também como muitos problemas atuais já haviam sido respondidos há séculos, ainda que de maneira mais genérica. Isso nos ajuda a compreender melhor a realidade, o comportamento humano e, até mesmo, o próprio Deus.

Claro, isso não fará automaticamente de nós sábios e santos. Mas também não podemos fingir que estudar a verdade não produz nenhum efeito em nós. Se buscamos sinceramente a verdade, inevitavelmente ela acabará nos conduzindo à Verdade com “v” maiúsculo.

Vejamos, essa ideia de que fé e razão são inimigas é, na verdade, uma grande caricatura moderna. Elas são diferentes, sim, mas ambas podem conduzir a alma humana à verdade. Por caminhos diferentes, mas a uma mesma verdade.

Resumindo: estudar História da Filosofia nos permite adquirir o conhecimento acumulado por séculos, ou melhor, milênios, compreender melhor o tempo em que vivemos e agir de forma mais virtuosa.

Não cair nos mesmos erros

O segundo motivo é praticamente uma continuação do primeiro: ao estudar História da Filosofia, também aprendemos com os erros do passado.

Ao estudar filósofos e correntes filosóficas, percebemos que nem sempre houve apenas acertos. E são justamente esses erros que também nos fazem aprender.

É aquela velha ideia: aprender com o erro do outro para não precisar errar também.

E acreditem se quiser: a história da filosofia está cheia de erros. Alguns surgiram por ignorância; outros, sinceramente, parecem ter sido feitos quase com vontade de errar e levar os outros ao erro junto.

Seja como for, tanto os acertos quanto os erros ajudam a aperfeiçoar nosso intelecto e nossa vontade, que são as potências mais elevadas da alma humana.

O método

Enfim, falaremos sobre o método que utilizaremos. Ele é dividido em três pontos.

O primeiro é estudar o que o filósofo realmente disse. Ao longo da história, encontramos diversos filósofos, e, para compreender o desenvolvimento filosófico, precisamos saber minimamente qual é a doutrina dos principais pensadores. E detalhe: não o que disseram que ele disse, mas aquilo que ele realmente escreveu.

O segundo ponto é estudar quem influenciou o filósofo e quem ele influenciou. Os filósofos influenciam as gerações seguintes, para o bem ou para o mal, mas também são influenciados pelas gerações anteriores.

E, por fim, o terceiro ponto é conhecer o contexto histórico do filósofo: onde nasceu, em que época viveu e quais eram os principais acontecimentos daquele período. Tudo isso influencia profundamente a forma como ele pensa.

Ao unir esses três pontos, conseguimos percorrer a História da Filosofia observando seus altos e baixos, seus acertos e seus erros, suas ascensões e decadências. E então percebemos como cada filósofo colocou a sua “pedrinha” nesse edifício grandioso chamado sabedoria, ou então tentou derrubá-lo com suas ideologias.

Conclusão

Para concluir, lembremos: a filosofia é a busca da verdade. Se não houver busca sincera da verdade, não há filosofia; há ideologia.

A História da Filosofia divide-se em quatro grandes períodos: Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea.

Devemos estudá-la por dois grandes motivos: primeiro, porque adquirimos o conhecimento acumulado durante séculos, ou melhor, milênios; segundo, porque aprendemos também com os erros do passado e ficamos mais atentos para não cair nos erros do presente.

E faremos isso seguindo um método baseado em três pontos: estudar o que o filósofo realmente disse; estudar quem o influenciou e quem ele influenciou; e compreender o contexto histórico em que viveu.

A partir do próximo artigo, vamos mergulhar de cabeça no surgimento da filosofia com os pré-socráticos, estudando suas doutrinas, seus contextos históricos e o legado que deixaram para as gerações futuras.