Por: Aline Jacomo
Caro leitor, com a intenção de não “chover no molhado” e repetir a mesma ladainha de “É pecado!”, “Deus te criou para algo maior!” ou coisa parecida, aqui vão minhas sinceras considerações sobre o tema.
Gostaria, antes, que soubessem: há aqui a experiência de sete anos de namoro, no auge da adolescência/início da vida adulta, uma guerra ferrenha para viver a castidade (e considerando que numa guerra se ganha e se perde, ao fim, saímos vitoriosos) e o fruto dessa guerra sendo, até o momento, mais de um ano de casados sem nenhuma briga do casal. Sim, amigos, podemos “quebrar o pau” com pessoas de fora, até discutir com o cônjuge, mas nada que chegue aos pés de uma briga de casal. Bom, feita minha propaganda, vamos aos fatos:
- Ter tempo de conhecer o outro
O tempo do namoro, seja ele de meses ou anos, deveria ser aplicado ininterruptamente para conhecer o seu parceiro de trabalho. Sim, eu disse “de trabalho” e não de “vida/matrimônio” porque normalmente tendemos a ser mais criteriosos com quem irá nos ajudar com as demandas do que com quem iremos envelhecer ao lado. Além disso, se há uma competência que devemos treinar no namoro é a capacidade de resolver problemas, ou seja, diálogo, realismo, objetividade, flexibilidade de pensamento e mais um currículo inteiro de boas práticas.
“Ahhh, mas é bom fazer um test drive antes, né!?”. Pois faça! Arrumem um empréstimo de pelo menos R$ 100.000,00, decidam onde aplicar o dinheiro, pensando também em como pagar e nas renúncias de cada um, tudo isso sem brigar. Fiquem alguns meses acordando várias vezes na madrugada e mantenham o bom humor. Obedeçam a regrinhas um do outro sem reclamar. Digam: “Você está certo(a), me desculpe, eu errei”.
Todos esses test drives são bem mais importantes do que uma hora de deleite no motel. Passar o resto da vida juntos envolve todas as 24 horas do seu dia, todos os problemas psicológicos, financeiros, crises de maturidade, ideias, desejos, pecados e, se tudo isso não estiver dialogando bem, o diálogo na cama também não vai rolar.
Ademais, existe uma ideia, muito otimista inclusive, de pensar que, quando casar, isso vai mudar. Pois bem, há 90% de chance de nada mudar; se assim for, você continuaria com a pessoa? A ideia correta deveria ser: “Eu aguento essa característica pelo resto da minha vida?”.
Essa decisão precisa ser racional e, se você já tem um enlace sexual com a pessoa, fica difícil observá-la sem a aura da sedução. Prova disso são os tantos relacionamentos, filmes e músicas que possuem esse mesmo enredo: há interesse, há gozo, há química, mas terminam porque algo era diferente e aquele relacionamento não fazia mais sentido. E estavam certos, pois o sexo não dá sentido à relação; pelo contrário, todos os outros pontos de uma vida a dois alinhados vão alinhar também o sexo.
- Casamento não é para time sem escalação
Quem assistiu à Copa e viu o Brasil empatando com Marrocos no primeiro jogo ouviu aquela explicação: “Ahh, mas estávamos acertando a escalação, por isso não foi tão bom”. No entanto, uma errada dessas no mata-mata e só daqui a 4 anos pra usar a vuvuzela de novo. Na Copa não dá tempo de treinar nada; é time, é jogada, é tudo isso funcionando perfeitamente pra ter chance de vitória.
Do mesmo modo acontece no casamento: o time, ou melhor, a dupla tem de estar com todas as jogadas alinhadas; isso inclui a vida inteira um do outro — a vida! Valores, sonhos, projetos, gostos, tudo passa a ser nosso e não meu. O brilho individual de cada jogador deve ser aplicado para o benefício do time, para promoção e crescimento do time e não apenas o pessoal.
“Ah, mas e se meu ‘time’ não está bom? Melhor trocar o jogador?”. Nesse caso não; teremos de dar um jeito, mas isso leva tempo, significando que talvez vocês tenham de adiar alguns títulos que poderiam estar ganhando pra aprender jogadas e treinar o que já deveriam saber.
Aprender depois de velho não é, por si só, um problema. Normalmente é o que se tem de abrir mão para isso e o quanto já foi perdido por isso…
- Casamento não dá tempo de “ter todo dia”
Calma! Antes de você advogar no tribunal das pequenas causas, deixe-me lhe explicar este tópico.
Ainda que você tenha uma vida maravilhosa com o seu cônjuge, de modo que a convivência de vocês seja impecável, há, ainda, para atrapalhar a vida do crente, uma série de intempéries externas que fogem ao nosso controle. Considerando os 365 dias do ano, tanta coisa pode acontecer! Quantas notícias ruins se recebem? É gripe, é coluna travada, é puerpério, é salto de desenvolvimento, é dente nascendo, é intoxicação alimentar, é luto, é o colega de trabalho que lhe sugou a paciência, é fome, é sono, é a sogra… “São as águas de março fechando o verão e a promessa de vida pro seu coração”. E se você não pegou a referência, tem muito Brasil pra conhecer!
Voltando ao nosso raciocínio, a vida real tem todos esses momentos, sempre, e casar é ter um parceiro “pau pra toda obra”, ainda que a obra não tenha sexo. Na vida ideal, no planejamento, sim, tem de ter todo dia, mas, assim como as constantes na vida não existem, é preciso escolher alguém que saiba “dançar conforme a música” e viver o malabarismo dessa vida com a maestria de um artista de circo.