Por Sérgio Vellozo
Nosso Deus conduz a humanidade para a vida celestial. Ele nos chama e nos dá direções para chegarmos lá. De modo eminente, sua Palavra nos chega em Jesus como caminho, verdade e vida. Nosso Senhor subiu aos Céus para nos preparar um lugar, mas permanece no mundo através da Igreja, que é Seu corpo animado por Seu Espírito, o Espírito Santo, alma da Igreja.
Mas o mundo está submetido ao Maligno, ao enganador que é o pai da mentira. Esse príncipe do mundo tenta impedir as pessoas de ouvir e seguir a Deus, misturando o falso ao verdadeiro. Assim, como saber se um testemunho é de Deus? Não podemos dar ouvidos a qualquer um, pois o mestre do disfarce nos rodeia. Já nos advertia o Senhor dizendo para ter “cuidado com os falsos profetas: eles vêm até vós vestidos de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes”. Também São Paulo fala que, já no seu tempo, havia “falsos apóstolos, operários fraudulentos, disfarçados em apóstolos de Cristo”. O que “não é de admirar, pois o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz” (Mateus 7,15; 2 Coríntios 11,13.14).
Precisamos que o próprio Deus venha em nosso auxílio para ajudar a esclarecer as coisas. Sozinhos não temos como nos defender e separar a palavra falsa da verdadeira. É preciso que Deus venha e aponte aquilo em que é para se acreditar. E Ele faz isso!
São João narra no Evangelho como, muitas vezes, Jesus falou que as obras que o Pai lhe concedia realizar davam testemunho de que Ele estava unido ao Pai (João 5,36; 10,25.37-38; 14,10-12).
Deus concede a realização de milagres e prodígios como sinal da autenticidade dos que trabalham com Ele. Foi assim com os santos no Antigo Testamento; foi assim com Nosso Senhor Jesus e é assim com os santos da Igreja, iniciando com os apóstolos:
“Muitos sinais e prodígios eram realizados entre o povo pelas mãos dos apóstolos. Todos os fiéis se congregavam, bem unidos, no Pórtico de Salomão. Chegavam a transportar para as praças os doentes em camas e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, pelo menos sua sombra tocasse alguns deles. A multidão vinha até das cidades vizinhas de Jerusalém, trazendo doentes e pessoas atormentadas por maus espíritos. E todos eram curados.” (Atos dos Apóstolos 5,12.15.16)
No início da era Cristã, Deus sinalizou muitos mártires com dons extraordinários para confusão dos algozes e maravilha dos fiéis. Ao longo de toda a história da Igreja, Deus sinalizou pessoas engajadas na Sua obra concedendo-lhes operar milagres e prodígios. Há muitos casos de pregação prodigiosa acompanhada de sinais de poder, como vemos, por exemplo, em Santo Antônio de Pádua e São Francisco Xavier.
Mas não é só a Igreja militante, presente no mundo como extensão de Cristo, que opera milagres, mas também, e de forma abundante, a Igreja dos santos que morreram e estão no Céu. Deus quis manifestar ao mundo que os que morrem em Cristo vivem para sempre. Já nos primórdios, os cristãos aprendem a contar com a intercessão dos santos, obtendo deles auxílios extraordinários.
A devoção aos santos é naturalmente acompanhada pela veneração dos seus pertences e restos mortais. Uma carta escrita em 156 narra como os ossos do mártir São Policarpo foram recolhidos da fogueira onde fora queimado como joias preciosas e guardados para veneração dos fiéis. Após o edito de Milão, em 313, dando liberdade de culto, as práticas da Igreja perseguida, que celebrava nas catacumbas junto aos túmulos dos santos, podem se expandir com a construção de santuários. Logo se formou o costume de construir o altar sobre o túmulo de um mártir ou colocar abaixo dele relíquias de mártires. Hoje o altar deve ser construído com uma cavidade onde se colocam as relíquias de santos e se tampa com a chamada Pedra d’ara. No ano 386, Santo Ambrósio teve uma revelação mostrando onde estavam enterrados os mártires Gervásio e Protásio. O traslado das relíquias destes santos para colocar sob o altar da igreja foi acompanhado de muitos milagres, o que impulsionou muito a veneração de relíquias.
Outra forma que Deus às vezes usa para nos indicar sua graça é manter o corpo do santo intacto. Um exemplo impressionante é São Charbel Makhluf, monge libanês que morreu em 1898 e, por mais de 50 anos, seu corpo ficou intacto, exalando um misterioso líquido. Um caso bem recente é a serva de Deus Leonia, irmã de Santa Teresinha, falecida em 1941, que está com o corpo intacto até hoje.
A Igreja considera três classes de relíquias:
1) As de primeira classe são os restos mortais do Santo;
2) As de segunda classe são objetos de uso pessoal do Santo;
3) As de terceira classe são panos que tocaram uma relíquia de primeira classe.
A relíquia de terceira classe nos recorda Atos dos Apóstolos (19,11.12) narrando que “Deus realizava milagres extraordinários pelas mãos de Paulo, a tal ponto que pegavam lenços e aventais que tivessem tocado sua pele, para aplicá-los sobre os doentes, e as doenças os deixavam e os espíritos maus se retiravam”. A diferença é que, na época, Paulo não tinha morrido.
O Dicastério das Causas dos Santos publicou, em 8 de dezembro de 2017, uma Instrução sobre “As relíquias na Igreja: Autenticidade e Conservação”. O documento aborda em detalhes como se devem tratar os restos mortais de alguém que esteja em via de canonização, desde a exumação do corpo até o depósito em urnas e relicários.
A Instrução, logo de início, faz uma importante distinção entre relíquia insigne e não insigne para indicar quando é necessário um cuidado especial envolvendo os Bispos.
“Tradicionalmente são consideradas relíquias insignes os corpos dos Beatos e dos Santos ou partes notáveis dos mesmos corpos ou todo o volume das cinzas derivadas da cremação. A estas relíquias os Bispos diocesanos, os Eparcas, quantos a estes são equiparados pelo direito e a Congregação das Causas dos Santos reservam um especial cuidado e vigilância para lhes assegurar a conservação e a veneração e para lhes evitar os abusos. São, portanto, guardadas em urnas próprias, sigiladas e colocadas em lugares que lhes garantam a segurança, respeitem a sacralidade e lhes favoreçam o culto.”
“São consideradas relíquias não insignes pequenos fragmentos do corpo dos Beatos e dos Santos ou também objetos que estiveram em contato direto com as suas pessoas. Devem ser possivelmente guardadas em caixas lacradas. De todo modo, serão conservadas e honradas com espírito, evitando-se qualquer forma de superstição e de ilícito comércio.”
Infelizmente, alguns não atentam para essa distinção e pretendem que mesmo a relíquia não insigne seja custodiada apenas por Bispos. Mas não é o caso e muitos grupos, confrarias e mesmo particulares possuem relíquias de primeira classe de modo legítimo.
A experiência nos mostra que o santo quer, por meio da relíquia, entrar nas casas, visitar as famílias e levar o conforto da sua presença e intercessão a todos. É muito bonito quando rezamos o terço com o pessoal reunido nas casas em companhia dos santos, fisicamente presentes por meio das relíquias. Vemos Nossa Mãe Santíssima unindo, assim, os filhos do Céu com os da Terra.
O importante é cuidar para não tratar a relíquia como um objeto mágico com poderes extraordinários. Não é isso, mas, sim, um meio eficaz de interação com o santo que vive na glória. A eficácia vem da nossa participação na fé da Igreja, que crê na Comunhão dos Santos.